Quando quem apoia pacientes com câncer recebe o próprio diagnóstico

Por muito tempo, estive ao lado de pessoas que recebiam um diagnóstico de câncer. Eu entrava nos quartos tentando levar calma. Nem sempre tinha as palavras certas, mas tinha presença. Segurava mãos, ouvia medos que quase não cabiam no peito de quem falava, saía de lá com o coração mexido, e com a certeza de que estar junto fazia diferença. Eu achava que entendia o que era enfrentar a doença. Hoje sei que eu entendia apenas de fora.

O dia do meu resultado não teve cena dramática. Teve uma sala comum, uma cadeira, um médico cuidadoso. E teve meu nome seguido de uma palavra que eu já tinha escutado tantas vezes na vida de outras pessoas. Quando ouvi, senti como se o mundo tivesse diminuído de tamanho. Não desabou. Só ficou diferente.

Voltei para casa tentando organizar os pensamentos. Pensei nas crianças que visitei. Pensei nas famílias que abracei. Pensei nas vezes em que disse “um dia de cada vez” com convicção. Agora essa frase era para mim.

O medo existe. Ele aparece quando a casa está em silêncio e eu começo a imaginar os efeitos do tratamento, as mudanças no corpo, a rotina virando do avesso. Existe o medo de preocupar as pessoas que eu amo. O medo de não dar conta. O medo de ser vista apenas como paciente. Também existe uma tristeza difícil de explicar. Não é só pela doença. É pelos planos simples interrompidos, pelas visitas que talvez precisem esperar, pela sensação de perder o controle de algo que eu achava estável.

Mas, no meio disso tudo, eu continuo sendo eu. Continuo acreditando no cuidado. A diferença é que agora eu preciso aceitar o cuidado dos outros, e isso exige uma coragem nova. Tenho aprendido que força não é não chorar. É marcar consulta mesmo com receio. É fazer perguntas. É permitir que alguém segure minha mão.

Não sei exatamente como será o caminho daqui para frente. Sei que haverá dias mais leves e outros mais difíceis. Mas também sei que um diagnóstico não resume quem eu sou. Eu sigo. Com medo às vezes, mas com verdade. Um dia de cada vez.

*Imagem ilustrativa. Texto inspirado em relatos reais de duas voluntárias. Edição e revisão: Wellington Nascimento

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