Vítima de ataques em redes sociais, apontado muitas vezes como vilão e o responsável pelo sobrepeso, o pão é um dos principais alimentos que compõem o café da manhã do brasileiro – e pode estar presente em outras refeições pela praticidade.
“O pão está entre os alimentos mais consumidos no mundo. É um alimento rico em carboidratos, que fornece energia rápida para o corpo”, explica a endocrinologista, com pós-graduação em endocrinologia e metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ, Deborah Beranger. No entanto, o pão também pode ser uma fonte de compostos nocivos formados durante o processamento, como hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, acrilamida e aminas heterocíclicas. Alguns desses compostos já foram associados a um maior risco de câncer em animais.
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Mas um estudo recente, publicado em dezembro, isentou o pão de ser cancerígeno, uma nomenclatura indigesta a um tipo de alimento tão consumido. “É uma revisão sistemática e meta-análise que revisou mais de 20 estudos que tentaram encontrar uma relação entre o consumo de pães e o risco de câncer. Como conclusão, o trabalho mostrou que a ingestão de pão não está associada ao risco de câncer de próstata, mama, colorretal ou outros tipos de tumores. Já a alta ingestão de pão integral pode ter efeito protetor e foi associada à redução do câncer colorretal e ao risco total de mortalidade por câncer”, completa o oncologista de São Paulo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, pós-doutor clínico no Royal Marsden NHS Foundation Trust (Inglaterra) e pesquisador honorário da Universidade de Oxford (Inglaterra), Ramon Andrade de Mello.
As descobertas indicam que o consumo de pão não está associado a uma maior incidência ou mortalidade por câncer. Muito da confusão que existe na internet na demonização do pão é por conta de más interpretações sobre o índice glicêmico desses alimentos. Alguns pães podem ter índice glicêmico moderado ou alto. Segundo Ramon, é bem verdade que altos níveis de açúcar no sangue podem favorecer certos tipos de câncer, mas não é possível extrapolar essa informação.
“Também depende muito do tipo de pão. Existe o pão branco, integral, com grãos… E não só isso, o que será usado como recheio pode diminuir esse índice glicêmico, principalmente se for usada uma fonte de proteína (ovo, carne, frango) ou de gordura boa”, explica a endocrinologista.
Outra questão importante, avalia Deborah Beranger, é que o contexto alimentar, com análise de todas as refeições, é muito mais preponderante do que o consumo de um alimento em específico. “Não é correto avaliar a saudabilidade de uma dieta por um único alimento”, explica a endocrinologista.
E também não é possível reduzir um alimento a um único composto. Um exemplo é citado por Ramon: o pão integral geralmente tem maior teor de acrilamida do que o pão branco. “No entanto, os antioxidantes, fibras e ingredientes bioativos do pão integral provavelmente excedem quaisquer riscos possíveis”, explica o oncologista.
Nenhum dos estudos incluídos na revisão relatou uma taxa maior de mortalidade total por câncer associada à ingestão de pão em análises categóricas ou de dose-resposta. “O consumo de pão também não foi associado a câncer de ovário, endométrio, estômago ou pulmão”, diz o oncologista.
Mas se nenhum faz mal, por que valeria a pena investir nas versões integrais? “Quando pensamos apenas em calorias, os dois (pão branco e integral) se equivalem, mas em termos de composição o pão integral é rico em fibras e nutrientes que o fazem ser uma melhor opção. Apenas pela presença das fibras, o pão integral oferece maior e mais duradoura sensação de saciedade, redução da absorção dos açúcares e gorduras ingeridos e ainda efeitos benéficos na função intestinal”, diz Deborah.
De qualquer maneira, é possível ingerir o alimento sem peso na consciência. “Atitudes mais relevantes para reduzir o risco de câncer incluem: evitar o sobrepeso, aumentar o consumo de vegetais e frutas, ricos em polifenóis e substâncias antioxidantes, e fibras, que melhoram a saúde intestinal, além de praticar atividade física”, reforça Ramon Andrade de Mello.
Com informações do Estado de Minas
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