A volta para casa após perder o filho para o câncer e abrir o quarto vazio

A estrada de volta era a mesma. Os mesmos postos, as mesmas curvas, o mesmo bar onde ele pediu coxinha na ida e comeu só metade porque enjoou. Na volta, o banco de trás vinha vazio. O silêncio também ocupava espaço.

A gente passou meses morando perto do hospital. Aprendi o nome das enfermeiras, o barulho das máquinas, o gosto ruim do café da recepção. A gente dizia que era por um tempo. Sempre por um tempo. Até o dia que não era mais.

Chegar na nossa cidade foi diferente de tudo que já vivi. Ninguém sabia o que falar. Alguns abraçavam forte demais, outros só encostavam na gente e choravam. Eu olhava para os olhos deles e via a pergunta que ninguém tinha coragem de fazer, como se esperassem que fosse mentira.

Organizar o sepultamento de um filho é uma coisa que não devia existir. Escolher roupa, ouvir opiniões, assinar papel. Eu só queria segurar ele mais um pouco.

A cidade parou. Tinha gente que eu nem conhecia. O caixão era pequeno. Pequeno demais. Eu fiquei olhando e lembrando dele correndo na sala, derrubando almofada, rindo alto. Como um corpo tão quieto podia ser o mesmo menino.

Voltar pra casa depois foi pior.

O quarto ainda tem o cheiro dele. Um carrinho embaixo da cama. O copo que ele usava na cabeceira. Eu entrei e sentei no chão. Fiquei ali sem saber quanto tempo.

Às vezes escuto criança brincando na rua e meu corpo reage antes de mim. Por um segundo, eu acho que é ele. Já levantei achando que ele estava no quintal. Já pensei que ele estava na casa de um primo, que ia chegar suado e com fome.

Aí vem o vazio outra vez.

O dia continua vindo, mesmo sem pedir licença. A mesa tem um lugar que ninguém ocupa. O silêncio da casa é diferente agora. Pesado. Eu ainda sou mãe. Mas meus braços não sabem mais onde colocar esse amor.

Texto adaptado a partir de relatos reais de duas mães que perderam seus filhos para o câncer. Em respeito à dor e à privacidade dessas famílias, seus nomes não serão divulgados.

💚Projeto AMIGOS


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