Tecnologia contra câncer avança, mas acesso ainda trava tratamento; entenda desafios

O avanço da oncologia no Brasil tem ampliado as possibilidades de diagnóstico e tratamento. Isso representa uma perspectiva positiva frente aos 781 mil novos casos de câncer que devem ser registrados no país até 2028, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

Entretanto, os profissionais da saúde e pacientes oncológicos ainda esbarram em um obstáculo central: o acesso. Seja na rede pública ou privada, há desafios na jornada do paciente podem influenciar diretamente nas chances de cura e na qualidade de vida durante o tratamento.

Tratamento e diagnóstico do câncer no SUS

Dados do Painel da Oncologia apontam que as despesas com procedimentos ambulatoriais e hospitalares para câncer ultrapassaram R$ 27 bilhões, em 2024, no Sistema Único de Saúde (SUS), o que significa um salto em relação aos cerca de R$ 3,1 bilhões, registrados em 2020.

O levantamento ainda aponta que, do total investido, aproximadamente 87% foram destinados à assistência hospitalar. Cirurgias, internações, terapias intensivas e tratamentos como quimioterapia e radioterapia concentram a maior parte dos custos.

A oncologia já representa cerca de 14% de todo o orçamento da saúde e chega a 32% quando se observa apenas os gastos hospitalares e ambulatoriais. Apesar do aumento dos investimentos, o oncologista do Hospital Santa Rita, Loureno Cezana, aponta que a principal falha segue sendo o acesso.

No SUS, o caminho até a confirmação da doença pode ser longo e fragmentado. Consultas, exames e biópsias, quando somados, podem levar semanas ou até meses.

Ainda existe, em várias regiões do país, dificuldade de acesso aos métodos de rastreamento, como mamografia, colonoscopia e exames preventivos. Além da dificuldade de acessar o tratamento dentro do tempo necessário.Loureno Cezana, oncologista do Hospital Santa Rita

A cirurgiã oncológica Ana Luiza Cardona, também do hospital Santa Rita, explica que esse percurso impacta diretamente na evolução da doença. “Temos pacientes que chegam para o primeiro atendimento com uma biópsia feita há dois, três meses. Isso é muito prejudicial, porque o câncer não espera. Quanto mais tempo demora para iniciar o tratamento, menores são as chances de cura”, afirma.

A legislação brasileira estabelece prazos para diagnóstico e tratamento do câncer:

  • Lei dos 30 dias (Lei nº 13.896/2019): pacientes com suspeita de câncer têm direito  à realização de exames diagnósticos no prazo máximo de 30 dias;
  • Lei dos 60 dias (Lei nº 12.732/2012): o tratamento deve começar em até dois meses após o diagnóstico confirmado.

No entanto, esses prazos nem sempre é cumprido. De acordo com um levantamento do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC), a média brasileira para acesso ao diagnóstico é de 50 dias e para o tratamento é de 70.

“Às vezes, cada etapa demora 15 dias — consulta, exame, biópsia, retorno. Quando você soma tudo, o paciente já chega atrasado ao serviço especializado”, complementa a médica Ana Luiza Cardona.

Na rede privada, embora o acesso seja, em geral, mais rápido, os desafios assumem outra forma. De acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), os planos são obrigados a cobrir consultas, exames, internações, cirurgias, quimioterapia e radioterapia, conforme o rol de procedimentos.

Na prática, porém, a realidade pode ser diferente. O Diagnóstico da Judicialização da Saúde Pública Suplementar, divulgado em novembro de 2025 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), apontou que, entre agosto de 2014 e julho de 2025, foram ajuizadas 123 mil novas ações contra planos de saúde na primeira instância e outras 108 mil na segunda.

Em uma amostra de 1.992 processos, 329 eram demandas específicas de pacientes com câncer.

A Lei dos Planos de Saúde (Lei n° 9.656/1998) estabelece a obrigatoriedade de cobertura para doenças listadas pela OMS, incluindo o câncer, e define os limites e exceções para carências, doenças preexistentes e cobertura parcial temporária. Além disso, após 24 meses de vigência do contrato, não pode haver restrição à cobertura da doença preexistente.

Congresso em Vitória vai debater fortalecimento da oncologia

Nos dias 14 e 15 de maio acontecerá o 4º Congresso de Oncologia do Hospital Santa Rita reunindo especialistas e profissionais da saúde para discutir avanços, desafios e estratégias no cuidado oncológico.

A programação inclui palestras, simpósios, mesas-redondas e sessões científicas. O objetivo é criar um ambiente de troca de experiências entre profissionais da oncologia, pesquisadores e gestores da área da saúde.

Serviço

4º Congresso de Oncologia do Hospital Santa Rita

Data: 14 e 15 de maio

Local: Centro de Convenções de Vitória

Inscrições: online, pelo site

Fonte: Folha Vitória


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