A bancária Silvana Ludwig Klauck é voluntária da Liga de Combate ao Câncer de Roca Sales (RS) desde 2014, quando retornou ao município após 22 anos fora do Vale do Taquari.
Foi pela Liga que ajudou a maioria das pessoas de Roca Sales nas enchentes de 2023 e 2024, uma tragédia que deixou cicatrizes. O município sofreu um impacto devastador, com estimativas de prejuízos econômicos totais chegando a R$ 350 milhões. Mas para Silvana, o que interessa é a salvação dos humanos.
Na tragédia, ela arregaçou as mangas e foi ajudar. Havia muito a fazer: cadastrar famílias atingidas, entregar doações, descobrir as pessoas que mais precisavam de alimentos. Roca Sales teve 31 vítimas das enchentes entre setembro de 2023 e maio de 2024. O hospital foi invadido duas vezes. A cidade se transformou num lamaçal, com casas atingidas até o telhado.
Muitos perderam suas moradias e foram encaminhados aos abrigos. Foi neste cenário de caos que Silvana atuou. “Pessoas juntas conseguem ir mais longe.” Em 2023, quando aconteceu a primeira enchente, a Liga foi muito procurada porque as pessoas queriam doar, mas não queriam passar pela esfera pública.
A entidade é era uma das principais associações de Roca Sales e em 2023, fez uma parceria com uma ONG forasteira para se adaptar e receber recursos. As doações vieram em ritmo acelerado. “Eu descobri que, quando a gente quer ajudar, sempre vai ter uma forma.” Ela preenchia cadastros intensamente, procurando auxiliar famílias atingidas a arrumar um local seguro, enviar cobertores, agilizar o cuidado com as crianças.
Essa é a face significativa do voluntariado. A outra é observar os bastidores de uma cidade de lodo, o turismo da tragédia. “No dia 7 de setembro, muita gente foi fazer turismo em Roca Sales. Estava impossível se movimentar”.
“Todos têm uma história da enchente para contar”
Ela se emociona ao lembrar dos desabrigados. O Lar de Idosos do município ficou sem luz, faltava aos internos o cuidado necessário para garantir o bem-estar. No caos da enchente, faltava também mãos para ajudar. Seu pai estava no lar e quando a viu disse apenas: “ Se você não puder me levar para casa, troque apenas minha fralda e me coloque na cama”. A cena ainda a impacta. Ela assegura: “Todo mundo vai ter uma história da enchente para contar.”
Ao mesmo tempo, percebeu a força que nasce da tragédia. Quando se ajuda os outros, o autocontrole volta. Lembra das madrugadas em que recepcionou voluntários que queriam chegar à cidade para ajudar a trabalhar. Assim, ao auxiliar voluntários, amplificou o respaldo aos idosos e comunidades do interior do município, onde havia agricultores famintos porque não tinham acesso a alimentos.
“Eu acho muito lindo a pessoa que sai do seu conforto e faz pelos outros. Há tantas maneiras de ajudar que não envolvem dinheiro. É só sair de casa”. Hoje, Silvana continua na Liga, aprendendo a escutar e a sentir. Vai às escolas, busca tampinhas plásticas, fala sobre saúde e interage com estudantes. É a melhor forma de prevenção.
Também se envolve nas ações assistenciais, acolhendo pacientes de câncer. Orienta e e os encaminha ao socorro adequado. A Liga é sua maneira de fazer o bem. E assim é conhecida por grande parte, na cidade de 10 mil habitantes.
A volta à Roca Sales e o apreço ao voluntariado
Filha de agricultores, Silvana sempre teve o lado voluntário aguçado por acreditar no poder do coletivo.
Quando retornou a Roca Sales, depois de 22 anos morando fora, filiou-se à Liga de Combate ao Câncer. O retorno à cidade ocorreu em 2014. No ano seguinte, sua mãe foi diagnosticada com câncer, e Silvana acompanhou todas as suas lutas. As circunstâncias a estavam preparando para dar o seu máximo de voluntariado na tragédia climática que assolou Roca Sales, em 2023 e 2024. Ela continua ajudando após a enchente, desta vez auxiliando na reconstrução e arrecadando tampinhas para o trabalho voluntário da Liga. “A gente pode fazer o voluntariado na própria cidade, nas ações do dia a dia”, salienta.
A amiga que veio da enchente
A agente comunitária Simone perdeu tudo nas duas enchentes. Pela profissão, também viu de perto a dura realidade das famílias atingidas. Foi nesse período que conheceu Silvana.
“A Silvana é uma pessoa em quem eu confio e quero manter na minha vida até meu último dia.” Simone recebeu ajuda, mas também ajudou. Como conhecia as famílias e sabia onde estavam as principais necessidades, tornou-se um canal seguro de informações para que a Liga pudesse levar doações a quem mais precisava.
Desse contato nasceu o vínculo entre Simone e Silvana. Uma amiga que veio da enchente, mas ficou para a vida.
Fonte: A Hora
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