Na manhã em que um irmão vai ao hospital, o outro pode seguir para a escola. Dentro de casa, porém, os dois já estão vivendo uma realidade diferente. O câncer modifica horários, planos e prioridades. Para quem está em tratamento, tudo gira em torno do cuidado. Para o irmão, a vida continua, mas com a família reorganizada.
Um estudo qualitativo publicado pelo INCA acompanhou sete irmãos, de 8 a 16 anos, de pacientes pediátricos em tratamento. Os relatos mostraram medo, ansiedade, culpa, ciúme, solidão, perda da companhia do irmão e mudanças na vida familiar, escolar e social. A pesquisa buscou compreender como essas crianças percebiam o adoecimento, sem produzir dados estatísticos.
Quando sentimentos diferentes aparecem juntos
Amar um irmão e sentir ciúme da atenção que ele recebe não são experiências incompatíveis. A pesquisa encontrou essa combinação de afeto, preocupação e compaixão com sentimentos como inveja, ressentimento e culpa.
Por isso, vale criar espaço para conversar sem repreender a criança pelo que sente. Perguntas simples: “O que mudou para você?” ou “Tem alguma coisa preocupando você?”, podem revelar necessidades que ficaram escondidas.
Preservar a rotina ajuda a preservar o vínculo
Durante um tratamento prolongado, consultas e internações reorganizam a casa. Mas escola, amigos, brincadeiras e momentos com os pais continuam importantes.
A cartilha Orientações para cuidadores de crianças e adolescentes com câncer, do Instituto Desiderata com profissionais da oncologia pediátrica, destaca a relevância das atividades diárias, do brincar e da escola durante o tratamento.
Manter esses espaços ajuda o irmão saudável a não viver apenas à margem da doença.
Participar não significa assumir responsabilidades
Fazer um desenho, mandar uma mensagem ou brincar juntos pode aproximar os irmãos. O que não deve acontecer é transformar a criança ou o adolescente em cuidador.
Também é importante explicar o câncer de maneira compatível com a idade. O estudo do INCA encontrou relatos de desinformação, estranheza diante da doença e medo da morte e de adoecer. Informação adequada pode tornar a experiência menos confusa.
Olhar para quem continua fora do hospital
O filho que segue para a escola pode parecer menos afetado porque sua rotina continua visível. Ainda assim, mudanças persistentes de comportamento, isolamento, irritabilidade ou dificuldades escolares merecem atenção.
O INCA orienta que seja oferecido suporte psicossocial ao paciente e aos familiares desde o início do tratamento. Buscar a equipe diante de uma dificuldade emocional importante também faz parte do cuidado.
No Projeto AMIGOS, acompanhar uma criança significa perceber os vínculos que permanecem ao redor dela. Fortalecer a relação entre irmãos começa quando os dois continuam tendo espaço para falar, brincar, discordar, rir e simplesmente ser filhos.
O câncer pode mudar a rotina da casa, mas não precisa determinar toda a história entre os irmãos. Preservar essa relação é proteger uma parte da infância que a doença não deve levar. Para quem confia em Deus, cuidar desses vínculos também pode ser uma expressão de amor e esperança.
Imagem ilustrativa: criada com o auxílio de inteligência artificial para representar o tema deste conteúdo, preservando a identidade e a privacidade de pacientes e familiares.
Descubra mais sobre Blog do Projeto AMIGOS
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

