Uma mudança no jeito de brincar, um cansaço que não passa, uma dor que insiste em voltar. Na infância, sinais assim podem ter explicações muito diferentes e, na maioria das vezes, não estão relacionados ao câncer. Ainda assim, quando alguma alteração persiste ou foge do padrão habitual, ela merece ser observada e levada ao conhecimento de um profissional. É justamente nesse espaço entre a rotina e a atenção que o Setembro Dourado encontra uma de suas razões de existir.
Para cada ano do triênio 2026–2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 7.560 novos casos de câncer entre crianças e adolescentes de 0 a 19 anos no Brasil. Em 2023, foram registrados 2.326 óbitos nessa população.
Um câncer diferente do observado em adultos
O câncer infantojuvenil reúne diferentes doenças e pode surgir em várias partes do organismo. Leucemias, linfomas e tumores do sistema nervoso central estão entre os tipos mais frequentes. Também aparecem nessa faixa etária diagnósticos como neuroblastoma, tumor de Wilms, retinoblastoma, osteossarcoma e outros sarcomas, conforme explica o INCA.
As causas ajudam a compreender por que o câncer em crianças não deve ser analisado pelos mesmos critérios usados para muitos tumores em adultos. Segundo o INCA, as causas são, em grande parte, desconhecidas. Apenas uma pequena proporção, estimada em cerca de 5%, é atribuída a fatores hereditários. A exposição à radiação ionizante é apontada como o único agente ambiental comprovadamente associado ao desenvolvimento dessas neoplasias.
Atenção aos sinais não significa procurar doença em tudo
Não existe um sintoma único capaz de indicar câncer infantojuvenil. Alterações como perda de peso sem explicação, fraqueza, dores persistentes, febre recorrente, sangramentos, massas ou alterações neurológicas podem estar relacionadas a diferentes condições. O que merece investigação é a persistência, a recorrência ou a presença de mudanças que não encontram uma explicação satisfatória.
O INCA orienta que o diagnóstico precoce seja buscado pela investigação de sinais e sintomas suspeitos. A recomendação é diferente do rastreamento: atualmente, não há evidência de que rastrear crianças e adolescentes sem sintomas produza mais benefícios do que riscos.
Na prática, isso significa separar atenção de alarmismo. Observar uma mudança e procurar atendimento não transforma sintomas comuns em suspeita de câncer. Significa apenas não ignorar aquilo que persiste, se repete ou se apresenta de maneira diferente do esperado para aquela criança.
O tempo pode mudar o caminho do tratamento
Há uma razão objetiva para o diagnóstico precoce receber tanta atenção. O INCA informa que cerca de 80% das crianças e adolescentes com câncer podem ser curados quando diagnosticados precocemente e tratados em centros especializados. O número representa uma perspectiva populacional, não uma garantia para cada caso, mas mostra a importância de reduzir atrasos entre o aparecimento de sinais, a investigação e o tratamento.
Em 1º de setembro de 2026, o Hospital de Câncer de Pernambuco abriu o mês do Setembro Dourado reforçando justamente a atenção a sinais persistentes, recorrentes ou sem causa aparente. A campanha, portanto, não se resume a uma cor: ela coloca uma doença pouco frequente, mas de grande impacto, no campo de visão das famílias e dos profissionais.
No Projeto AMIGOS, essa realidade ganha outra dimensão nas visitas ao NACC. A convivência com crianças e adolescentes em tratamento mostra que a doença ocupa espaço importante na rotina, mas não apaga interesses, brincadeiras, conversas, vínculos e momentos de afeto. Apoiar uma família também passa por preservar esses espaços de normalidade possíveis durante uma fase marcada por tantas mudanças.
Setembro Dourado continua necessário justamente porque conhecimento e atenção precisam chegar antes que a dúvida seja deixada de lado. Falar sobre o câncer infantojuvenil não é esperar o pior, mas reconhecer que certas mudanças merecem ser investigadas. Quando uma família percebe, pergunta e procura orientação no momento adequado, o cuidado deixa de ser uma reação tardia e pode começar mais cedo.
Descubra mais sobre Blog do Projeto AMIGOS
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

