Quando tristeza, medo e ansiedade durante o câncer passam a pedir atenção

Antes mesmo de uma consulta, algumas perguntas podem começar a ocupar a cabeça de quem recebeu um diagnóstico de câncer. O resultado será favorável? Como será a próxima etapa? Será possível lidar com os efeitos do tratamento? Nesse intervalo de incerteza, medo, tristeza e ansiedade podem aparecer de forma intensa. Sentir essas emoções não significa, por si só, ter um transtorno mental. A atenção se torna necessária quando elas persistem e começam a interferir na vida diária.

Um estudo brasileiro publicado na Revista Brasileira de Cancerologia avaliou 233 pacientes oncológicos por meio da escala HADS. Foram identificados sinais de ansiedade provável ou possível em 31,33% dos participantes e de depressão provável ou possível em 26,18%. Os resultados são de triagem e não equivalem a diagnósticos psiquiátricos.

Quando o sofrimento deixa de ser apenas uma reação

O impacto emocional pode aparecer de maneiras diferentes. Dificuldade persistente para dormir, perda de interesse, isolamento, falta de energia, dificuldade de concentração e preocupação difícil de controlar merecem ser relatados à equipe que acompanha o paciente.

Essa distinção evita transformar toda tristeza em doença e também impede que um sofrimento prolongado seja tratado como algo que a pessoa precisa suportar. A avaliação profissional ajuda a entender o que está acontecendo e se há necessidade de acompanhamento psicológico, psiquiátrico ou de outra intervenção.

O cuidado emocional entra no tratamento

A organização da assistência oncológica brasileira reconhece essa dimensão. A Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer prevê cuidado integral e apoio psicológico ao paciente e aos familiares, na rede que articula prevenção, diagnóstico, tratamento, reabilitação e cuidados paliativos.

Nos cuidados paliativos, essa perspectiva aparece de forma ainda mais clara. O INCA orienta que sejam considerados aspectos físicos, sociais, psicológicos e espirituais, com o objetivo de prevenir e aliviar o sofrimento. Esses cuidados podem ser associados ao tratamento com intenção de cura e iniciados precocemente, conforme a necessidade.

Assim, procurar ajuda para lidar com o sofrimento emocional não representa abandonar o tratamento do câncer. Pode integrar o cuidado.

O que a família consegue perceber

Nem sempre o paciente encontra palavras para explicar o que está acontecendo. Quem convive pode notar mudanças persistentes no comportamento: afastamento, irritabilidade incomum, perda de interesse ou dificuldade para lidar com atividades que antes eram possíveis.

Nessas situações, pressionar por uma reação ou insistir em frases de otimismo pode fechar o espaço para a conversa. Escutar, respeitar limites e estimular o contato com a equipe de saúde são atitudes mais úteis. Em situações de sofrimento intenso ou risco de autoagressão, a busca por atendimento de urgência é necessária.

A saúde mental integra o cuidado oncológico. Medo, tristeza e ansiedade podem acompanhar o diagnóstico sem constituírem automaticamente um transtorno. O sinal de atenção aparece quando começam a comprometer o sono, os relacionamentos, as atividades ou a capacidade de lidar com o cotidiano. Reconhecer essa mudança permite que o sofrimento seja avaliado antes de se agravar.


Setembro Amarelo

Ao longo de setembro, o cuidado com a saúde mental ganha espaço em diferentes debates sobre prevenção, escuta e acolhimento. A partir deste artigo, o Projeto AMIGOS também passa a abordar o tema, ampliando a conversa para situações em que o sofrimento emocional e a busca por ajuda precisam ser levados a sério.

Se você ou alguém próximo estiver enfrentando sofrimento emocional intenso ou pensamentos de suicídio, procure ajuda. O CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia. Em situações de urgência ou risco imediato, acione o SAMU pelo 192 ou procure uma unidade de emergência.


Imagem ilustrativa: criada com o auxílio de inteligência artificial para representar o tema deste conteúdo, preservando a identidade e a privacidade de pacientes e familiares.


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