Uma íngua aparece no pescoço, não dói e permanece por semanas. Em outra situação, a pessoa percebe febre recorrente, suor noturno ou uma perda de peso que não consegue explicar. Esses sinais podem levar à investigação de um linfoma, mas não permitem concluir, sozinhos, que exista câncer. O próprio Instituto Nacional de Câncer (INCA) destaca que manifestações semelhantes também podem ocorrer em outras condições.
O tema ganha dimensão no Brasil. Para cada ano do triênio 2026–2028, a estimativa mais recente do INCA aponta 12.560 novos casos de linfoma não Hodgkin e 3.070 de linfoma de Hodgkin. Os números, porém, reúnem doenças com características distintas. Por isso, tratar “linfoma” como se fosse uma única enfermidade pode levar a uma compreensão equivocada.
Um nome que reúne doenças diferentes
Os linfomas se originam em células do sistema imunológico. Os dois grandes grupos são o linfoma de Hodgkin e os linfomas não Hodgkin.
No segundo grupo está uma variedade ampla de tumores. O INCA descreve os linfomas não Hodgkin como um conjunto heterogêneo que reúne mais de 50 neoplasias distintas, incluindo formas de células B, T e NK. Algumas têm crescimento mais lento; outras apresentam comportamento agressivo e podem exigir tratamento em prazo mais curto.
O Hodgkin tem características próprias e é identificado pela presença de células de Reed-Sternberg. Pode ocorrer em diferentes idades, com maior incidência entre adolescentes e adultos jovens e um segundo pico em faixas etárias mais avançadas, conforme a estimativa mais recente do INCA.
Essa classificação interfere diretamente na investigação, no estadiamento e na escolha do tratamento.
Os sinais chamam atenção, mas não fecham diagnóstico
Aumento de linfonodos no pescoço, nas axilas ou na virilha está entre os sinais mais comuns. Febre sem causa aparente, sudorese noturna intensa, fadiga e perda de peso não intencional também podem ocorrer. No material técnico do INCA, a perda significativa de peso é descrita como superior a 10% do peso corporal em seis meses.
Nenhum desses achados, entretanto, é exclusivo dos linfomas. Gânglios aumentados podem surgir em infecções e outras situações, enquanto febre e cansaço têm inúmeras causas. Por isso, alterações que persistem sem uma explicação clara merecem avaliação, sem transformar um sintoma isolado em suspeita definitiva.
A dificuldade de chegar ao diagnóstico também aparece em dados brasileiros. Em pesquisa da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale) com 262 pacientes, 71% relataram sintomas antes da confirmação. Entre os participantes, 24% demoraram, em média, 149 dias para obter o diagnóstico, enquanto 31% passaram por mais de três médicos durante a trajetória. Os resultados retratam a experiência desse grupo e não devem ser tratados como uma média de todos os pacientes brasileiros.
A confirmação depende do tecido
Uma alteração em um linfonodo pode justificar investigação, mas o diagnóstico do linfoma não é estabelecido apenas pela avaliação clínica ou por um exame de sangue. A confirmação depende da análise de tecido obtido por biópsia. No Hodgkin, o INCA aponta a biópsia excisional como o procedimento ideal, porque a retirada completa do linfonodo preserva sua arquitetura e favorece a classificação da doença.
Exames de imagem ajudam a determinar a localização e a extensão do câncer. No linfoma de Hodgkin, o PET-CT tem papel importante no estadiamento quando disponível; quando o exame não está acessível, a tomografia pode ser utilizada. Esses métodos complementam a investigação, mas não substituem a análise anatomopatológica.
O tratamento muda conforme o tipo
Não existe um único tratamento para todos os linfomas. No Hodgkin clássico, o INCA descreve a quimioterapia como base terapêutica, com o protocolo ABVD entre os esquemas utilizados, associado ou não à radioterapia conforme as características do caso. O instituto informa que aproximadamente 70% a 80% dos pacientes são curados atualmente com os esquemas quimioterápicos disponíveis.
Nos linfomas não Hodgkin, a conduta depende do subtipo, estágio e condições individuais. Quimioterapia, imunoterapia e radioterapia podem fazer parte do tratamento, enquanto algumas formas indolentes podem ser inicialmente acompanhadas sem intervenção imediata. Outras apresentam comportamento agressivo e exigem tratamento mais rápido.
Conhecer essas diferenças ajuda a interpretar melhor uma suspeita. Uma íngua persistente não equivale a um diagnóstico, assim como a palavra “linfoma” não define, sozinha, o comportamento da doença. Entre um sinal e uma conduta existem avaliação clínica, biópsia, classificação e estadiamento. É essa sequência que permite sair da hipótese e chegar a uma definição capaz de orientar o cuidado de cada pessoa.
Imagem ilustrativa: criada com o auxílio de inteligência artificial para representar o tema deste conteúdo, preservando a identidade e a privacidade de pacientes e familiares.
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