Trabalhar durante a noite por muitos anos pode estar relacionado à ocorrência de alguns tipos de câncer. Essa é a conclusão de um estudo realizado com participantes do ELSA-Brasil, que encontrou associação entre mais de dez anos de trabalho noturno e maior incidência de câncer de próstata e de cólon e reto.
Publicado em setembro de 2026 na Revista de Saúde Pública, o estudo analisou 14.787 participantes do ELSA-Brasil que não tinham diagnóstico prévio de câncer no início do acompanhamento. Eles foram avaliados entre 2008 e 2010 e acompanhados até 2023, durante uma média de 13 anos. A exposição ao trabalho noturno foi obtida a partir da história ocupacional informada pelos próprios participantes, considerando o tempo acumulado nessa modalidade de trabalho.
O que a pesquisa encontrou
Entre os participantes que haviam trabalhado à noite por mais de dez anos, a estimativa estatística apontou risco 38% maior de câncer de próstata e 35% maior de câncer de cólon e reto, em comparação com aqueles que trabalhavam durante o dia. Para câncer de mama, não foi identificada associação estatisticamente significativa com o trabalho noturno.
Esses percentuais não significam que 38% ou 35% dos trabalhadores noturnos desenvolverão essas doenças. Os valores representam medidas relativas de comparação entre os grupos analisados. Além disso, por se tratar de um estudo observacional, a pesquisa identifica uma associação entre exposição e ocorrência de câncer, mas não demonstra que o trabalho noturno tenha causado individualmente os casos observados.
O papel do ritmo circadiano
Uma das explicações investigadas para essa relação envolve a alteração do ritmo circadiano, sistema que organiza os ciclos de sono e vigília e participa de diferentes processos fisiológicos. Trabalhar durante o período habitual de sono modifica a exposição à luz e a rotina de descanso, podendo provocar alterações circadianas, hormonais, inflamatórias e metabólicas.
A Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), da Organização Mundial da Saúde, classifica o trabalho noturno como “provavelmente carcinogênico para humanos” (Grupo 2A). A avaliação considerou evidências limitadas em humanos para câncer de mama, próstata, cólon e reto, além de evidências suficientes em animais e evidências mecanísticas. A própria IARC ressalta que essa classificação indica o potencial carcinogênico de uma exposição e não determina o nível de risco para cada pessoa.
O trabalho também pode fazer parte dessa exposição
No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) inclui o trabalho em turnos noturnos entre fatores ocupacionais associados ao câncer de próstata e ao câncer de cólon e reto. Para a próstata, o instituto também descreve a possível participação da alteração do relógio biológico nessa relação. Para o câncer de intestino, o INCA relaciona o trabalho noturno a alterações do ritmo natural do organismo e o inclui entre as condições ocupacionais que podem aumentar o risco da doença.
Isso não significa, porém, que o horário de trabalho seja um fator isolado. O desenvolvimento do câncer envolve diferentes características individuais, ambientais e comportamentais. No câncer colorretal, por exemplo, o INCA também aponta fatores como excesso de peso, inatividade física, tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, alimentação e aspectos hereditários.
O que esse estudo acrescenta
O trabalho publicado pela Revista de Saúde Pública acrescenta evidências produzidas no Brasil a um tema investigado internacionalmente. Seu principal resultado está na associação observada entre uma exposição noturna prolongada e dois tipos de câncer, especialmente entre participantes com mais de dez anos de trabalho noturno.
O resultado não permite prever quem desenvolverá câncer nem transforma o trabalho noturno em uma causa única da doença. Ele reforça, porém, a importância de considerar a história ocupacional quando se estudam os fatores relacionados ao câncer e de continuar investigando como jornadas prolongadas em horários noturnos podem afetar a saúde ao longo dos anos.
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