Quando voluntários chegam a uma casa de apoio, nem sempre a primeira tarefa é começar uma atividade. Às vezes, é esperar. Uma criança pode estar cansada depois de uma consulta; um adolescente pode preferir ficar no celular; uma mãe pode querer conversar, enquanto outra prefere apenas acompanhar o filho. Em uma realidade atravessada pelo câncer, a atividade planejada pode continuar dentro da mochila.
O câncer infantojuvenil tem características próprias e exige atendimento especializado. O Ministério da Saúde destaca que essa linha de cuidado também inclui suporte às crianças, aos adolescentes e às suas famílias durante o tratamento. É nesse espaço, ao lado do cuidado clínico, que o voluntariado pode contribuir, desde que reconheça os próprios limites.
Respeitar o ritmo vem primeiro
Uma visita não precisa ser cumprida a qualquer custo. Se a criança não quiser brincar, a atividade pode esperar. Se o adolescente preferir conversar sobre qualquer assunto que não tenha relação com o câncer, melhor ainda: ele continua sendo muito mais do que o diagnóstico.
Em orientação às famílias, o INCA recomenda respeitar o tempo e os limites da criança. O instituto também aponta que brincar, jogos e outras atividades lúdicas podem favorecer a comunicação durante o tratamento, enquanto o silêncio deve ser respeitado quando ela não quiser falar. Para o voluntário, isso significa chegar com disposição para participar, mas sem decidir de antemão como aquele encontro deve acontecer.
Boa intenção também precisa de limite
Em uma ação de apoio, o voluntário não substitui médico, psicólogo, enfermeiro ou assistente social. Não cabe interpretar exames, comentar prognósticos, sugerir mudanças no tratamento ou transformar uma experiência pessoal em orientação de saúde.
A experiência do INCA com voluntariado reforça a importância de preparo, disciplina e respeito às normas do serviço. Há também uma dimensão formal. A Lei nº 9.608/1998 define o serviço voluntário como atividade não remunerada e prevê termo de adesão com o objeto e as condições de seu exercício.
Acolher também é preservar
Há informações que não pertencem ao voluntário. O diagnóstico de uma criança, a história da família, uma conversa reservada ou uma fotografia feita durante uma visita não devem se transformar em divulgação por iniciativa pessoal.
Essa responsabilidade é ainda maior quando envolve crianças e adolescentes. O Estatuto da Criança e do Adolescente assegura direitos ligados à dignidade, ao respeito e à preservação da imagem, da identidade e da autonomia. Contar uma história ou publicar uma fotografia exige atenção à privacidade, às autorizações pertinentes e às regras do local.
O que permanece depois da visita
O resultado do voluntariado pode ser discreto: uma tarde em que uma criança encontrou espaço para brincar, um acompanhante teve alguém disposto a escutar ou um adolescente pôde conversar sem ser reduzido à doença.
No próprio INCA, as ações voluntárias incluem atividades educacionais, recreativas, culturais e de lazer para pacientes e acompanhantes. Esse trabalho ocupa um lugar complementar na rede de apoio e não se confunde com o tratamento.
Uma das responsabilidades de quem se dispõe a servir é justamente essa: contribuir sem tomar para si uma história que pertence à família. Em uma realidade tão delicada, estar presente exige sensibilidade para perceber quando é hora de agir, quando é hora de ouvir e quando simplesmente é melhor respeitar o momento.
Foto: registro feito durante uma visita do Projeto AMIGOS ao NACC, em novembro de 2025. Alguns dos voluntários que aparecem na imagem continuam participando das visitas. Entre as crianças e os adolescentes registrados naquele período, alguns concluíram o tratamento e seguem apenas em acompanhamento médico.
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