Parar de fumar depois do diagnóstico de câncer ainda traz benefícios à saúde

Depois do diagnóstico de câncer, o dia a dia passa a ser marcado por consultas, exames e decisões sobre o tratamento. Para quem fuma, surge ainda outra questão: parar agora pode fazer diferença? Pesquisas recentes indicam que sim. A interrupção do tabagismo após o diagnóstico esteve associada a melhores resultados em diferentes grupos de pacientes, embora os estudos não permitam transformar esses números em uma previsão individual.

Um relatório publicado em setembro pela Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, reuniu evidências sobre o tema e apontou que parar de fumar depois do diagnóstico pode estar relacionado a maior sobrevida e menor risco de progressão do câncer.

Um estudo acompanhou pacientes com câncer de pulmão

Entre os trabalhos considerados está um estudo publicado em 2021 no Annals of Internal Medicine. Os pesquisadores acompanharam 517 pessoas que fumavam e haviam recebido diagnóstico de câncer de pulmão de células não pequenas nos estágios IA a IIIA, atendidas em dois centros de Moscou, na Rússia.

Durante aproximadamente sete anos de acompanhamento, 220 participantes deixaram de fumar. Depois dos ajustes estatísticos, os pesquisadores encontraram associação entre a cessação do tabagismo e 33% menor risco de morte por qualquer causa e 30% menor risco de progressão da doença. A sobrevida global mediana foi de 6,6 anos entre os pacientes que pararam de fumar e 4,8 anos entre os que continuaram, uma diferença de 21,6 meses. Resultados semelhantes foram observados entre fumantes leves, moderados e pesados e entre pacientes com câncer em estágios mais precoces ou avançados.

Os resultados não significam que abandonar o cigarro fará cada paciente viver exatamente determinado tempo a mais. O trabalho é observacional, e os pesquisadores acompanharam a relação entre o comportamento dos participantes e a evolução da doença. Entre as limitações apontadas está o uso de informações autorreferidas sobre o consumo de tabaco.

Resultados também foram observados em câncer renal

A evidência reunida pela IARC inclui ainda um estudo com 212 pacientes com câncer renal que fumavam no momento do diagnóstico. Os participantes foram acompanhados por uma mediana de 8,2 anos. Nesse período, parar de fumar esteve associado a cerca de 50% menor risco de morte por qualquer causa e 55% menor risco de progressão da doença. (veja o estudo)

Os pesquisadores observaram esse efeito em diferentes grupos de pacientes, incluindo fumantes leves e aqueles com consumo moderado ou elevado, além de pessoas com tumores em estágios mais iniciais ou avançados. Os resultados reforçam a associação observada no câncer de pulmão, embora os estudos tenham sido realizados com grupos e tipos de tumor diferentes.

No Brasil, parar de fumar também faz parte do cuidado

O câncer de pulmão está entre os tumores de maior impacto no país. Para cada ano do triênio 2026–2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 35.380 novos casos de câncer de traqueia, brônquios e pulmão no Brasil. O instituto aponta o tabagismo como a principal causa da doença.

O INCA também destaca que deixar de fumar continua sendo importante depois do diagnóstico. A cessação pode reduzir complicações relacionadas ao tabaco e faz parte de uma abordagem mais ampla do cuidado de pessoas com câncer.

Para quem tem dificuldade para interromper o consumo, existe tratamento no SUS. Segundo o INCA, a rede está presente nos 26 estados e no Distrito Federal, com ações descentralizadas para os municípios. O acompanhamento pode incluir atendimento individual ou em grupo e, quando indicado, medicamentos para auxiliar a cessação.

A relação entre cigarro e câncer costuma ser discutida antes mesmo de a doença aparecer. Os estudos recentes acrescentam uma informação importante para quem já recebeu o diagnóstico: parar de fumar continua sendo uma medida de cuidado, mesmo depois que o câncer foi descoberto. Para quem ainda fuma, a equipe que acompanha o tratamento pode orientar sobre as formas de interromper o consumo e sobre o apoio disponível na rede de saúde.


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