Veterinarian examining a tabby cat in a veterinary laboratory

Câncer em gatos revela semelhanças genéticas que podem ajudar a ciência humana

Os gatos analisados em um novo estudo sobre câncer não foram preparados para um experimento. Eram animais que já tinham tumores e cujos tecidos haviam sido coletados por veterinários para diagnóstico. A partir desse material, pesquisadores conseguiram comparar o DNA de 493 pares de tecidos tumorais e normais, distribuídos entre 13 tipos de câncer, e encontraram alterações genéticas que também aparecem em tumores humanos.

Publicado na revista Science em fevereiro de 2026, o estudo original identificou 31 genes considerados condutores de tumores e avaliou os equivalentes felinos de cerca de mil genes associados ao câncer em humanos. O TP53 foi o gene mais frequentemente mutado. Também apareceram alterações recorrentes envolvendo PTEN, FAS e MYC, além de mutações potencialmente acionáveis em genes como PIK3CA, MAP2K1, KIT, FBXW7, FGFR2, PTEN e NF1.

Uma comparação feita a partir de tumores reais

A descoberta interessa à oncologia comparada, campo que procura entender o câncer observando semelhanças e diferenças entre espécies. A ideia não é considerar que gatos e pessoas tenham a mesma doença, mas investigar se determinados mecanismos biológicos se repetem. Quando uma alteração aparece em tumores de espécies diferentes, ela pode ganhar importância para novos estudos.

No Brasil, essa abordagem também faz parte da pesquisa acadêmica. O Laboratório de Oncologia Experimental e Comparada da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP estuda neoplasias, principalmente em cães e gatos, usando ferramentas de biologia molecular, cultivo celular e análise de tecidos.

Um dos resultados mais específicos envolve o gene FBXW7, identificado como gene condutor em tumores mamários felinos. Os pesquisadores então usaram seis linhagens de tumoroides mamários cultivados a partir de tumores, três com a mutação e três sem ela. As linhagens mutadas foram mais sensíveis à vincristina e à vinorelbina nos experimentos de laboratório.

Entre a descoberta e o tratamento

Essa distinção é importante. O estudo não testou uma nova terapia em pacientes humanos e não permite indicar esses medicamentos para pessoas com alterações semelhantes. Antes de chegar à prática clínica, uma descoberta desse tipo precisa ser reproduzida, avaliada em outros modelos e submetida a estudos que demonstrem segurança e benefício. O INCA explica o papel da pesquisa translacional justamente como a ligação entre a investigação básica e a aplicação clínica em oncologia.

Os resultados também podem ser vistos dentro do conceito de Uma Só Saúde, que reconhece a relação entre saúde humana, animal, vegetal e ambiental. Nesse caso, a aproximação está sobretudo na troca de conhecimento entre a pesquisa veterinária e a humana.

Para a oncologia, o estudo oferece uma base nova para investigar como determinados genes participam do câncer e quais alterações podem merecer atenção em pesquisas futuras. Para os pacientes, ainda não representa um tratamento. O próximo passo é descobrir quais desses achados resistem a estudos maiores e, principalmente, quais podem produzir algum benefício real na medicina.


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