Câncer de mama em mulheres jovens expõe limites do rastreamento e exige atenção

Quando uma mulher jovem percebe uma alteração na mama, o caminho até entender o que está acontecendo pode ser diferente daquele seguido por uma mulher que já está na faixa do rastreamento de rotina. Os registros do SUS mostram por que essa diferença merece atenção: entre as mulheres de 20 a 29 anos diagnosticadas com câncer de mama, 68,3% tiveram a doença identificada nos estágios III ou IV. O dado reúne casos registrados entre 2015 e 2025. Entre 30 e 39 anos, foram 61,9%; entre 40 e 49, 53,7%; e entre 50 e 69, 47,6%. (veja o Panorama do Câncer de Mama)

Esses números não significam que mulheres mais novas deveriam fazer mamografia de rotina. A recomendação do INCA é que o rastreamento mamográfico seja realizado a cada dois anos entre 50 e 74 anos, para pessoas sem sinais ou sintomas. Quando uma mulher apresenta uma alteração suspeita, a finalidade é outra: investigar a causa daquela mudança. Essa diferença entre rastreamento e diagnóstico é importante porque uma mulher pode estar fora da faixa de rastreamento e, ainda assim, precisar de investigação.

Algumas mudanças merecem avaliação. O INCA inclui entre os sinais que precisam ser investigados o surgimento de nódulo endurecido, fixo ou em crescimento, a saída espontânea de líquido por um dos mamilos, a retração da pele ou do mamilo, o aumento progressivo da mama e alterações na pele com aspecto de casca de laranja. Essas manifestações também podem ter outras causas, mas uma alteração persistente não deve ser ignorada apenas por causa da idade.

Há também diferenças nas características dos tumores encontrados em mulheres mais jovens. Estudos brasileiros apontam maior frequência de tumores de alto grau e de alguns subtipos associados a comportamento mais agressivo nesse grupo. No estudo AMAZONA III, mulheres com até 40 anos apresentaram mais casos de doença em estágio III e maior frequência de alguns desses subtipos.

O problema, porém, não está apenas no momento em que a doença é descoberta. O tempo até o tratamento também pesa nessa trajetória. Entre 2015 e 2025, a espera média no SUS entre o diagnóstico e o início do tratamento foi de 123 dias. Em 2025, caiu para 86 dias, mas 57,2% das pacientes ainda começaram o tratamento depois dos 60 dias previstos na legislação.

O dado sobre as mulheres de 20 a 29 anos, portanto, precisa ser lido além da estatística. Elas não fazem parte da faixa de rastreamento mamográfico de rotina, mas podem desenvolver câncer de mama e apresentar sinais que exigem investigação. Quando isso acontece, reconhecer a alteração e avançar sem atrasos desnecessários na investigação pode reduzir o tempo até o diagnóstico e, em alguns casos, contribuir para encontrar a doença em uma fase mais favorável ao tratamento.


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