Em 2024, cerca de 2,3 milhões de novos casos de câncer no mundo — aproximadamente 12% do total — foram atribuídos a infecções. A estimativa faz parte de um estudo publicado no The Lancet Oncology, conduzido por pesquisadores ligados à Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), da Organização Mundial da Saúde. A análise considerou 12 agentes infecciosos classificados como carcinógenos do Grupo 1. Os números são estimativas populacionais: não significam que toda pessoa infectada desenvolverá câncer nem permitem atribuir automaticamente a um agente a origem de um tumor individual.
O levantamento também incorporou 16 associações entre agentes infecciosos e tipos de câncer que não haviam sido consideradas nas estimativas mundiais anteriores, feitas com dados de 2018. Isso ampliou o conjunto de tumores contabilizados, sem significar a descoberta de 16 novos agentes infecciosos. O estudo original, publicado no The Lancet Oncology, detalha os critérios utilizados.
H. pylori e HPV lideram as estimativas
A bactéria Helicobacter pylori foi associada a aproximadamente 760 mil casos, principalmente de câncer de estômago. O HPV apareceu relacionado a cerca de 750 mil. Também figuram entre os principais agentes os vírus das hepatites B e C, associados a aproximadamente 360 mil e 160 mil casos, respectivamente, e o vírus Epstein-Barr, relacionado a outros 260 mil. Os números se referem ao conjunto mundial de casos estimados em 2024.
No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) também aponta a infecção por H. pylori como fator associado ao câncer gástrico. Ela não é a única: tabagismo, excesso de peso, consumo de bebidas alcoólicas e alimentação com excesso de sal e poucas frutas e vegetais também estão entre os fatores relacionados à doença.
Vacinação e tratamento ajudam a reduzir riscos
Alguns tipos de HPV estão associados a cânceres do colo do útero, ânus, pênis, vulva, vagina e a parte dos tumores da orofaringe. A vacinação ajuda a prevenir essas doenças. No calendário de rotina do SUS, a vacina é destinada a meninas e meninos de 9 a 14 anos. Em 2026, uma estratégia de resgate permite que jovens de 15 a 19 anos sem vacinação registrada recebam o imunizante até 31 de dezembro, conforme as orientações do Ministério da Saúde. A proteção não abrange todos os tipos de HPV, e o rastreamento do câncer do colo do útero continua importante.
A vacina contra a hepatite B está disponível gratuitamente no SUS para pessoas não vacinadas de todas as idades. A infecção crônica pode evoluir para cirrose e câncer de fígado. Para a hepatite C, não existe vacina, mas há testes e tratamento gratuito. Os antivirais de ação direta apresentam taxas de cura superiores a 95%, segundo as informações do Ministério da Saúde.
Já a investigação e o tratamento da H. pylori dependem de avaliação profissional. A associação da bactéria com o câncer gástrico não justifica testes indiscriminados nem o uso de antibióticos sem indicação médica.
O desafio de ampliar a prevenção no Brasil
Um estudo publicado em 2025 na Revista Brasileira de Cancerologia analisou a vacinação contra o HPV e outros indicadores dos cânceres relacionados ao vírus no país. A cobertura da primeira dose foi de 76% entre meninas, no período de 2013 a 2021, e de 52% entre meninos, de 2017 a 2021. Os dados são históricos e não representam a cobertura atual, mas ajudam a dimensionar o desafio de ampliar a proteção. A pesquisa está disponível na revista científica ligada ao campo de pesquisa do INCA.
O estudo internacional mostra que uma parcela dos casos de câncer está relacionada a infecções para as quais já existem medidas de prevenção, diagnóstico ou tratamento. No Brasil, ampliar a vacinação, facilitar o acesso à testagem e garantir o acompanhamento indicado são passos concretos para reduzir riscos. A prevenção não elimina todos os tumores, mas pode evitar que algumas infecções contribuam para o desenvolvimento da doença.
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