A refeição está servida, mas mastigar dói. A saliva diminui, engolir exige esforço e até a escovação incomoda. Durante a quimioterapia ou a radioterapia, essas alterações podem afetar tarefas comuns. O impacto varia conforme o câncer e a terapia. Por isso, a avaliação odontológica precisa entrar no planejamento desde o início, não apenas quando aparece uma lesão.
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Feridas, boca seca e infecções
Uma das complicações é a mucosite oral, inflamação da mucosa que provoca vermelhidão, feridas e dor. Nos quadros mais intensos, mastigar e engolir ficam difíceis. A redução da saliva (hipossalivação) causa boca seca (xerostomia) e favorece cáries. Infecções por fungos, como a candidíase, também podem ocorrer.
A radioterapia na região da cabeça e do pescoço pode afetar as glândulas salivares e os tecidos da boca. Quatro estudos citados na diretriz clínica do Ministério da Saúde acompanharam 391 pacientes oncológicos; 48,6% apresentaram xerostomia. O percentual se refere aos grupos estudados, não a todos os pacientes com câncer.
A avaliação odontológica antes da terapia
Antes do tratamento, sempre que possível, o dentista deve avaliar cáries, inflamações gengivais, dentes comprometidos e focos de infecção. O planejamento muda conforme a terapia. Para a radioterapia de cabeça e pescoço, recomenda-se eliminar focos infecciosos. Antes da quimioterapia, a diretriz prevê cuidados mínimos dirigidos a infecções agudas com sintomas como dor, inchaço, secreção ou febre.
Durante a quimioterapia ou a radioterapia de cabeça e pescoço, a recomendação é limitar os procedimentos odontológicos aos casos de urgência. A decisão cabe ao dentista, em diálogo com a equipe oncológica e de acordo com as condições clínicas do paciente.
Higiene diária com orientação profissional
A escovação deve continuar, com adaptações quando necessárias. A recomendação é usar escova de cerdas macias ou extramacias e creme dental com pelo menos 1.000 ppm de flúor, após as refeições e antes de dormir. O fio dental também é indicado, conforme a condição da boca. Pacientes e cuidadores precisam de orientação sobre a técnica.
Quando a dor atrapalha a escovação, o dentista pode indicar outras formas de higiene. Para a boca seca, são citados produtos umectantes em solução ou gel, spray de água filtrada e hidratação frequente. Bochechos de solução salina ou bicarbonato não têm evidências suficientes para prevenir ou tratar a mucosite. A clorexidina não deve ser usada para esse fim; pode ser indicada para controle da placa quando o paciente não consegue removê-la adequadamente, sob supervisão odontológica.
O cuidado continua depois das sessões
O acompanhamento não termina na última sessão. Após a quimioterapia ou a radioterapia, a diretriz sugere consultas odontológicas a cada seis meses, com intervalo menor se surgirem intercorrências ou maior risco. Em áreas que receberam radiação na cabeça e no pescoço, extrações exigem avaliação criteriosa devido ao risco de osteorradionecrose, lesão que compromete o osso.
Feridas persistentes, placas esbranquiçadas, dor, inchaço ou sangramento devem ser informados à equipe. Febre durante o tratamento também merece contato rápido com o serviço responsável.
Uma boa avaliação não elimina os efeitos da terapia, mas pode evitar problemas adicionais. O acompanhamento permite agir antes que a dor passe a determinar o que o paciente consegue comer.
Imagem ilustrativa: criada com o auxílio de inteligência artificial para representar o tema deste conteúdo, preservando a identidade e a privacidade de pacientes e familiares.
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