A coluna da jornalista Lúcia Helena aborda um problema grave no tratamento do câncer de próstata avançado no SUS: milhares de pacientes continuam recebendo medicamentos considerados ineficazes, mesmo existindo alternativas mais modernas e capazes de aumentar a sobrevida. A análise citada no texto avaliou dados de 38.851 homens atendidos entre 2017 e 2023 e revelou que cerca de 19% dos pacientes com câncer de próstata resistente à castração receberam terapias chamadas de “fúteis”, ou seja, sem benefício comprovado para prolongar a vida.
Segundo os pesquisadores, mais de 63 milhões de dólares foram gastos com drogas antigas como ciclofosfamida, flutamida, vinorelbina e mitoxantrona, medicamentos que já não deveriam ser utilizados nesse estágio da doença. O estudo, publicado no periódico científico JCO Global Oncology, mostrou que esse dinheiro poderia ter sido direcionado a tratamentos mais eficazes e acessíveis atualmente.
O oncologista Fernando Sabino, um dos autores da análise, explica que o problema não está apenas na falta de recursos financeiros, mas também na ausência de organização nacional, protocolos claros e atualização dos profissionais de saúde. Em muitos casos, médicos continuam utilizando terapias antigas porque observam queda no PSA — marcador relacionado à próstata — e acreditam que isso significa melhora real do paciente, quando na verdade não há ganho de sobrevida.
A reportagem do ViverBem Uol explica que o câncer de próstata avançado inicialmente responde à redução da testosterona, conhecida popularmente como “castração química”. Porém, com o tempo, as células tumorais se tornam resistentes e passam a crescer mesmo sem depender do hormônio. Nessa fase, o paciente necessita de tratamentos sistêmicos mais modernos e eficazes.
Até 2011, o principal tratamento disponível era o docetaxel, quimioterápico que aumentava a sobrevida média em apenas um mês. Depois surgiram medicamentos como a abiraterona e o cabazitaxel, capazes de reduzir significativamente o risco de morte. Apesar disso, o cabazitaxel ainda não foi incorporado ao SUS, enquanto a abiraterona, embora aprovada desde 2019, continua difícil de encontrar em diversas regiões do país. Em muitos locais, pacientes só conseguem acesso ao remédio por decisão judicial.
O texto também destaca desigualdades regionais e falhas estruturais no sistema público de saúde. Especialistas defendem a criação de protocolos nacionais obrigatórios, maior capacitação médica e melhor organização da distribuição de medicamentos oncológicos. A conclusão é que não necessariamente seria preciso gastar mais dinheiro, mas utilizar os recursos de forma mais inteligente, priorizando tratamentos comprovadamente eficazes e evitando terapias ultrapassadas que não trazem benefícios reais aos pacientes.
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