‘Tive que optar entre o pênis e a vida’: câncer genital masculino é frequente no Brasil e pode ser prevenido

Uma pequena mancha na glande foi o primeiro sinal percebido por Jorge*, de 63 anos, em 2022. Sem dor ou incômodo inicial, ele decidiu esperar. Com o passar dos meses, a mancha evoluiu lentamente para uma ferida persistente, ainda indolor, mas já desconfortável. Como muitos homens, adiou a consulta médica por cerca de um ano. Quando procurou atendimento, a lesão era evidente e o diagnóstico praticamente clínico; a biópsia confirmou câncer de pênis.

Jorge passou por quimioterapia neoadjuvante antes da cirurgia, realizada em outubro de 2025, para reduzir o tumor e tentar preservar o máximo possível do órgão. Ainda assim, foi necessária amputação parcial, com retirada da glande e do prepúcio, além dos linfonodos inguinais. O tumor havia se infiltrado também na pelve. Ele afirma que, se tivesse buscado ajuda ao notar os primeiros sinais, as consequências poderiam ter sido menores. Hoje, consegue urinar normalmente, mas relata impacto psicológico importante e reconhece que o medo contribuiu para o atraso.

O câncer de pênis é considerado raro em países como Estados Unidos e na maior parte da Europa, com incidência inferior a 1 caso por 100 mil homens. No Brasil, a taxa chega a cerca de 6,8 por 100 mil habitantes, uma das mais altas do mundo. Dados da Sociedade Brasileira de Urologia indicam que quase 2.900 homens passaram por amputação parcial ou total nos últimos cinco anos; na última década, foram mais de 6.500 procedimentos.

Especialistas apontam que cerca de metade dos casos está associada ao HPV, especialmente aos subtipos 16 e 18. A fimose, que dificulta a higiene e favorece o acúmulo de esmegma, pode gerar inflamação crônica e aumentar o risco de transformação maligna. Fatores socioeconômicos e culturais também influenciam, com diagnóstico mais tardio entre homens com menor acesso à informação e serviços de saúde.

Os principais sinais incluem ferida que não cicatriza, nódulo, espessamento da pele, secreção com odor forte e sangramento. A doença costuma ter evolução lenta, mas pode infiltrar tecidos vizinhos e atingir linfonodos inguinais, piorando o prognóstico. A sobrevida em cinco anos varia de 96% nos estágios iniciais para 20% nos casos com metástase à distância.

A circuncisão na infância reduz significativamente o risco. Nos não circuncidados, a higiene adequada é essencial. Casos avançados podem exigir cirurgia, quimioterapia, radioterapia e, em situações específicas, imunoterapia. Estudos também destacam impactos na qualidade de vida, incluindo disfunção sexual, alterações urinárias e sofrimento emocional, reforçando a necessidade de cuidado multidisciplinar.

*Nome fictício.


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