O remédio de bilhões contra o câncer que poucos conseguem pagar

O medicamento Keytruda (pembrolizumabe), aprovado para tratar ao menos 19 tipos de câncer, tornou-se um dos maiores sucessos da indústria farmacêutica, mas também símbolo das desigualdades no acesso à saúde. Vendido no Brasil por mais de R$ 20 mil, o remédio frequentemente está fora do alcance de muitos pacientes, apesar de ter prolongado a vida de milhões desde sua aprovação em 2014 pela FDA. Uma investigação internacional do projeto Cancer Calculus, coordenada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), aponta que a fabricante MSD utiliza estratégias legais, comerciais e regulatórias para controlar o acesso ao medicamento, incluindo políticas de preços, patentes e lobby.

O Keytruda é um imunoterápico que estimula o sistema imunológico a combater o câncer e gerou receita de 31,7 bilhões de dólares apenas em 2025, acumulando 163 bilhões desde seu lançamento. Mesmo com lucros elevados, os preços seguem altos, pressionando sistemas de saúde em todo o mundo. O custo anual do tratamento varia significativamente entre países, podendo ultrapassar 200 mil dólares nos Estados Unidos. A expansão global foi rápida, com crescimento expressivo das vendas em países como Brasil, França e México.

A investigação revelou o uso extensivo de patentes pela MSD, com mais de 1.200 pedidos registrados em dezenas de países, podendo estender o monopólio até 2042. Especialistas apontam essa prática como uma “fortaleza de patentes” que dificulta a concorrência e mantém os preços elevados. A empresa nega irregularidades e afirma que suas ações refletem inovação contínua. Também foram identificados pagamentos a médicos e influência indireta sobre prescrições.

Há divergências sobre os custos de pesquisa e desenvolvimento: enquanto a MSD afirma ter investido 46 bilhões de dólares, estimativas independentes apontam valores muito menores. A falta de transparência nos preços e acordos comerciais dificulta a comparação entre países. Em muitos casos, pacientes recorrem a campanhas de arrecadação, processos judiciais ou até ao mercado ilegal para obter o medicamento.

No Brasil, o alto custo impulsiona a judicialização, sendo o Keytruda o medicamento mais demandado na Justiça. Uma parceria recente entre o governo e o Instituto Butantan prevê produção nacional, o que pode ampliar o acesso e reduzir preços. A investigação também levanta dúvidas sobre a dosagem utilizada, sugerindo que ajustes poderiam gerar economia global significativa.

A MSD defende que os preços refletem o valor terapêutico e os investimentos realizados, destacando programas de apoio a pacientes. No entanto, o estudo conclui que o acesso ao tratamento ainda depende de fatores como renda, localização e estrutura dos sistemas de saúde, evidenciando uma profunda desigualdade global entre quem pode ou não se beneficiar dos avanços no combate ao câncer.

Conteúdo completo no g1


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