Dois pacientes recebem, no mesmo dia, o diagnóstico do mesmo tipo de câncer de pulmão com alteração no gene ALK, uma mutação rara encontrada em cerca de 5% dos casos no Brasil e mais frequente em pessoas jovens e que nunca fumaram. Ambos poderiam ser tratados com medicamentos-alvo em comprimidos, capazes de bloquear diretamente o crescimento do tumor e proporcionar maior sobrevida e controle da doença. No entanto, o acesso ao tratamento depende da rede de atendimento.
Dois estudos conduzidos pelo Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT), publicados na revista JCO Global Oncology, avaliaram essa realidade. Um deles entrevistou mais de 150 oncologistas brasileiros, enquanto o outro analisou prontuários de mais de 100 pacientes atendidos em 12 hospitais do país.
A primeira desigualdade ocorre no acesso ao exame que identifica a alteração genética. Enquanto 94% dos médicos da rede privada relataram acesso rotineiro ao teste, no SUS esse percentual foi de apenas 44%. Entre as principais dificuldades estão a falta de recursos para custear os exames, amostras insuficientes para análise e a necessidade de iniciar rapidamente a quimioterapia antes da confirmação do resultado. Como consequência, muitos pacientes da rede pública podem nunca descobrir que possuem a alteração genética e, assim, deixam de receber o tratamento mais adequado.
A diferença também aparece no acesso aos medicamentos. Na rede privada, o alectinibe, considerado tratamento de referência, está amplamente disponível. Já no SUS, mesmo após a incorporação do crizotinibe em 2022 e do brigatinibe em 2025, poucos médicos relatam acesso regular a esses medicamentos. Segundo os pesquisadores, o principal obstáculo é que os valores repassados aos hospitais públicos não cobrem o custo dos tratamentos, levando muitas instituições a utilizarem a quimioterapia por ser uma alternativa menos onerosa.
Os impactos são evidentes nos resultados clínicos. O estudo mostrou que o tempo entre os primeiros sintomas e o diagnóstico é, em média, mais que o dobro no SUS. Três anos após o diagnóstico, 87% dos pacientes da rede privada permaneciam vivos, contra 61% dos atendidos pelo SUS. Além disso, o tempo médio sem progressão da doença foi de 40 meses na rede privada, comparado a 11 meses no sistema público.
Segundo a oncologista Samira Mascarenhas, presidente eleita do GBOT, essa desigualdade de acesso se traduz em diferenças reais na sobrevida dos pacientes. Embora parte da perda possa ser reduzida quando o tratamento-alvo é iniciado posteriormente, o atraso pode comprometer o estado clínico do paciente.
A especialista afirma que o principal desafio da medicina de precisão no Brasil não é científico nem regulatório, mas econômico. Ela defende modelos de negociação de preços adotados por outros países para ampliar o acesso aos medicamentos. Em nota, o Ministério da Saúde informou que disponibilizará gradualmente, a partir de outubro, 23 novos medicamentos oncológicos de alto custo, incluindo brigatinibe, gefitinibe, erlotinibe e durvalumabe, todos financiados integralmente pelo governo federal. A pasta também destacou a criação do Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco), iniciativa destinada a ampliar o acesso, padronizar protocolos e reduzir a burocracia na oferta de tratamentos contra o câncer.
Conteúdo resumido a partir de matéria publicada no portal do g1. Leia a versão completa no site oficial.
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