Esperar também faz parte do tratamento: o desafio de viver um dia de cada vez

O exame terminou, mas a história daquele dia ainda não. Agora começa uma parte menos visível do tratamento: esperar. O resultado pode levar horas ou dias; a consulta seguinte já está marcada; até lá, surgem perguntas que não podem ser respondidas antecipadamente. Para quem vive o câncer, esse intervalo pode parecer pequeno no calendário e enorme na rotina.

A espera não é apenas ausência de notícia. Ela pode trazer ansiedade, alterar o sono, prender a atenção ao celular e fazer com que cada sensação do corpo seja interpretada como um possível sinal. Em um estudo multicêntrico com 202 pessoas aguardando resultados de exames de imagem, 45% relataram alguma mudança emocional durante a espera; entre essas pessoas, 85% apresentaram ansiedade em diferentes graus. O grupo estudado não era formado exclusivamente por pacientes oncológicos, mas 23% tinham histórico de câncer. Leia o estudo no PubMed.

Quando o resultado ainda não chegou

A vontade de saber logo o que vem pela frente é compreensível. No entanto, durante o tratamento, muitas decisões dependem de informações que ainda precisam ser reunidas. O câncer pode exigir diferentes modalidades terapêuticas, como cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou transplante de medula óssea, e em muitos casos mais de uma delas é combinada. INCA — Tratamento do câncer.

Essa dinâmica ajuda a entender por que o intervalo entre duas etapas não representa necessariamente uma interrupção do cuidado. Em alguns momentos, esperar significa permitir que os profissionais tenham elementos suficientes para avaliar o quadro e definir o próximo passo.

O problema começa quando aquilo que ainda não aconteceu passa a ocupar todas as horas do dia. A mente tenta preencher o vazio com hipóteses, e uma possibilidade imaginada pode ganhar aparência de certeza. Mas imaginar um resultado não antecipa o resultado.

A incerteza também cansa

A relação entre incerteza e ansiedade aparece de forma consistente na literatura sobre câncer. Um estudo com 353 pacientes que aguardavam resultados de sequenciamento genômico encontrou uma relação entre a percepção de incerteza e níveis posteriores de ansiedade relacionados ao próprio exame. Os autores destacaram que esperar por respostas pode gerar novas dúvidas práticas, científicas e pessoais. Leia o estudo completo.

Por isso, viver um dia de cada vez não significa pensar menos sobre a doença nem deixar de se preparar para o que virá. Significa separar aquilo que é possível resolver hoje daquilo que ainda depende de uma resposta futura.

Pode ser útil anotar dúvidas para a próxima consulta, reunir documentos e exames e confirmar orientações diretamente com a equipe responsável. Ter acesso a informações organizadas também ajuda pacientes e familiares a compreender melhor o tratamento. O INCA reúne materiais educativos sobre diferentes etapas e necessidades de pessoas em tratamento.

O presente não desaparece durante o tratamento

Enquanto o resultado não chega, a vida continua acontecendo. Há uma refeição para fazer, alguém para telefonar, uma criança para acompanhar, uma tarefa que ainda pode ser realizada. Nem todos os dias permitirão a mesma disposição, e isso também precisa ser respeitado.

Viver o presente não significa obrigar-se a estar bem. Há dias em que o medo estará mais evidente, e reconhecer isso é diferente de permitir que ele decida tudo. Quando a preocupação se torna intensa ou interfere de maneira importante na rotina, vale conversar com a equipe de saúde.

No câncer infantojuvenil, uma orientação produzida pela equipe multidisciplinar de oncologia pediátrica do INCA reconhece que medo, angústia, ansiedade e tristeza podem surgir tanto nas crianças quanto nos responsáveis e destaca a importância de abrir espaço para perguntas e diálogo durante o tratamento.

Esperar sem colocar a vida inteira em pausa

Nem sempre será possível diminuir o tempo até a próxima consulta ou acelerar a chegada de um resultado. É possível, porém, impedir que todos os outros momentos fiquem subordinados a essa espera.

Um dia pode ser apenas o dia em que um exame foi feito. Pode ser o dia de descansar depois de uma sessão, conversar com alguém querido, brincar com os filhos ou simplesmente fazer menos porque o corpo pediu menos. O tratamento seguirá seu percurso, com decisões tomadas no tempo necessário.

Entre uma resposta e outra, existe um espaço que não precisa ser preenchido por previsões. Pode ser preenchido pela vida possível daquele dia. Viver um dia de cada vez não elimina a incerteza, mas impede que o que ainda não aconteceu roube inteiramente aquilo que já está acontecendo.


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