Quando o sofrimento pesa além do tratamento: hora de buscar apoio psicológico

Uma consulta pode terminar em poucos minutos, mas algumas perguntas continuam acompanhando o paciente pelo resto do dia. E se o exame mostrar alguma alteração? Como será a próxima etapa? Será possível manter a rotina? O tratamento está funcionando? Nem sempre essas inquietações aparecem durante a conversa com a equipe médica. Muitas vezes, ficam guardadas enquanto a pessoa tenta cumprir horários, lidar com efeitos colaterais e preservar, tanto quanto possível, a vida que existia antes do câncer.

É nesse espaço menos visível da doença que a saúde mental merece atenção. O sofrimento emocional pode surgir em diferentes momentos e não deve ser confundido automaticamente com um transtorno. Uma revisão integrativa brasileira sobre distress, publicada na Revista Brasileira de Cancerologia, identificou estudos que relacionam esse sofrimento a diferentes fases da experiência oncológica e apontou que ele pode estar presente durante toda a trajetória da doença.

Quando a emoção deixa de ser apenas uma reação

Medo, tristeza, irritação e preocupação podem aparecer diante de uma cirurgia, enquanto um resultado é aguardado ou durante uma fase prolongada de tratamento. Sentir essas emoções não significa, por si só, que exista um transtorno psicológico. O contexto, a intensidade, a duração e o impacto sobre a rotina precisam ser considerados.

O sinal de atenção aparece quando o sofrimento começa a ocupar espaço excessivo na vida. Sono prejudicado de forma persistente, isolamento, perda de interesse por atividades, ansiedade difícil de controlar, tristeza prolongada ou dificuldade crescente para realizar tarefas habituais são situações que podem justificar uma conversa com um profissional.

Um estudo brasileiro publicado na Cogitare Enfermagem avaliou 69 pacientes com câncer e encontrou sintomas de ansiedade em 69,6% deles e sintomas de depressão na mesma proporção. A presença simultânea dos dois sintomas apareceu em 59,4% da amostra. A pesquisa também identificou associações entre ansiedade e fadiga, e entre depressão e fatores como tempo desde o diagnóstico e astenia. Os resultados são relevantes, mas pertencem a uma amostra específica e não podem ser usados para afirmar que esses percentuais representam todos os pacientes oncológicos.

Não é preciso esperar uma crise

Procurar um psicólogo não precisa ser o último recurso depois de uma situação emocionalmente insustentável. O acompanhamento pode começar quando a pessoa percebe que está tendo dificuldade para organizar pensamentos, lidar com o medo ou adaptar-se às mudanças provocadas pela doença.

O espaço terapêutico pode ajudar o paciente a elaborar preocupações relacionadas ao diagnóstico, alterações na imagem corporal, perdas, conflitos familiares, incertezas e mudanças na rotina. Também permite falar sobre sentimentos que, muitas vezes, são escondidos para evitar preocupação entre os familiares.

Essa necessidade pode aparecer logo após o diagnóstico, durante procedimentos, em períodos de internação, ao longo do tratamento ou depois de seu encerramento. A revisão brasileira sobre distress mostra justamente que o sofrimento emocional não está restrito a uma única etapa: ele pode acompanhar diferentes momentos da trajetória oncológica.

Por isso, não existe uma data universal para buscar apoio. Uma pergunta mais útil é: o que estou sentindo está começando a interferir na forma como vivo, me relaciono ou enfrento o tratamento?

A família pode perceber mudanças antes

Algumas transformações são mais fáceis de serem percebidas por quem está próximo. Irritabilidade persistente, afastamento, alterações importantes no sono, desânimo ou preocupação constante podem chamar a atenção de familiares e amigos.

Isso não significa diagnosticar alguém em casa. O papel de quem acompanha é observar, escutar e favorecer o acesso a ajuda profissional quando necessário. Uma conversa sem cobranças pode ser mais útil do que insistir para que a pessoa mantenha uma postura positiva o tempo inteiro.

Também é importante não transformar o sofrimento em falta de força. Há momentos em que o paciente simplesmente não consegue responder com otimismo às exigências da situação. Ter medo não significa desistir. Chorar não significa falta de coragem. Admitir cansaço emocional não diminui a importância de continuar o tratamento.

Os resultados do estudo publicado na Cogitare Enfermagem reforçam essa dimensão ao apontar índices elevados de sintomas de ansiedade e depressão e defender a necessidade de apoio psicossocial para pacientes com câncer.

Cuidar da mente também faz parte da jornada

O Dia Nacional da Psicóloga e do Psicólogo é celebrado em 27 de agosto. A data foi instituída pela Lei nº 13.407/2016, enquanto a regulamentação da Psicologia como profissão no Brasil ocorreu em 1962.

Para quem enfrenta um câncer, a data pode servir como um lembrete de que saúde mental não deve entrar na agenda apenas quando tudo parece desmoronar. O medo que persiste, a tristeza que não diminui, a ansiedade que impede o descanso ou o isolamento que se intensifica são motivos suficientes para conversar com a equipe de saúde e avaliar a necessidade de acompanhamento psicológico.

O tratamento pode estar concentrado em exames, medicamentos, cirurgias e consultas, mas a experiência de adoecer ultrapassa esses procedimentos. Ela modifica planos, relações, expectativas e a maneira como cada pessoa percebe o próprio futuro.

Buscar apoio psicológico não apaga essas dificuldades. Pode, porém, ajudar a colocá-las em palavras, compreender o que está acontecendo e encontrar recursos para atravessar cada etapa com mais clareza. Às vezes, cuidar da saúde mental começa justamente quando alguém deixa de esconder aquilo que está sentindo.


Imagem ilustrativa: criada com o auxílio de inteligência artificial para representar o tema deste conteúdo, preservando a identidade e a privacidade de pacientes e familiares.


Descubra mais sobre Blog do Projeto AMIGOS

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta