Na saída de uma consulta, uma família pode celebrar uma notícia que esperava há semanas. No caminho de volta para casa, porém, o paciente talvez continue pensando no próximo exame, no efeito colateral que ainda não passou ou na possibilidade de a doença voltar. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo: existe motivo para agradecer e também existe algo que ainda assusta.
Essa convivência afasta uma ideia perigosa: ser grato não significa estar bem. No câncer, reconhecer algo positivo não obriga ninguém a esconder medo, tristeza, raiva ou cansaço. Há dias em que perceber uma pequena coisa boa é possível; em outros, o mais honesto é simplesmente admitir que está difícil.
Gratidão não é obrigação de pensar positivo
Imagine uma pessoa que passou meses em tratamento e finalmente recebe uma notícia favorável. Ela sorri, agradece e abraça quem está ao lado. Horas depois, já em casa, pode sentir vontade de chorar. Não há contradição nisso. A boa notícia não apagou tudo o que aconteceu antes, nem eliminou a incerteza sobre o que virá depois.
Quando a doença altera a rotina, pode surgir uma expectativa de otimismo permanente. A pessoa sente que precisa demonstrar força para tranquilizar familiares, mesmo quando está esgotada.
Uma revisão integrativa publicada na Revista Brasileira de Cancerologia analisou estudos sobre distress em pacientes oncológicos no Brasil. A amostra final reuniu nove artigos e mostrou que o sofrimento emocional pode estar presente em diferentes fases da doença. Os pesquisadores também chamaram atenção para a escassez de estudos brasileiros sobre o tema.
Por isso, oferecer apoio nem sempre significa procurar uma frase motivadora. Às vezes, é mais cuidadoso permitir que alguém diga que aquele dia está difícil, sem transformar a tristeza em sinal de fraqueza ou falta de esperança.
O que as pesquisas já mostram
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada na revista einstein (São Paulo) reuniu 64 ensaios clínicos randomizados. Os estudos indicaram que intervenções de gratidão estiveram associadas a maiores níveis de gratidão, melhor saúde mental e menos sintomas de ansiedade e depressão. Os autores apresentam essas intervenções como um complemento terapêutico, e não como substituição do cuidado em saúde.
Na oncologia, porém, a evidência específica ainda é menor. Um ensaio clínico randomizado registrado no PubMed acompanhou 92 adultos com câncer avançado durante sete dias. Houve redução do sofrimento nos dois grupos avaliados. Entre os participantes que praticaram um diário de gratidão associado à atenção plena, também foram observadas melhoras significativas em uma medida de ansiedade e depressão e em uma escala de bem-estar espiritual.
O resultado é relevante, mas precisa ser interpretado dentro dos limites do estudo: trata-se de uma investigação específica, com acompanhamento curto e uma população determinada. Gratidão não é tratamento contra o câncer e não substitui acompanhamento médico, psicológico ou outros cuidados necessários.
Quando agradecer vira cobrança
“Você precisa ser forte” ou “pense positivo” podem parecer palavras de incentivo, mas também podem deixar pouco espaço para sentimentos difíceis.
O cuidado oncológico reconhece essa dimensão emocional. A Portaria GM/MS nº 6.591/2025, que instituiu a Rede de Prevenção e Controle do Câncer, inclui o apoio psicológico ao paciente e aos familiares entre as ações que integram o cuidado às pessoas com câncer. A norma também prevê cuidados paliativos dentro dessa atenção integral.
Acolher a tristeza, portanto, não significa abandonar a esperança. Significa reconhecer que uma pessoa pode valorizar o cuidado recebido e, ao mesmo tempo, sentir medo do que ainda está por vir.
Reconhecer o que existe, sem negar o que falta
A gratidão pode aparecer em um gesto simples, numa presença constante, em uma notícia favorável ou em algumas horas de descanso. Não precisa ser grandiosa para ter significado. Às vezes, ela cabe em uma mensagem recebida no momento certo, numa conversa durante uma madrugada difícil ou na sensação de conseguir realizar uma tarefa que, semanas antes, parecia impossível.
Também não é preciso transformar cada pequena conquista em uma celebração. Há momentos em que apenas reconhecer “isso me fez bem” já é suficiente.
Para familiares e amigos, criar espaço para que a pessoa reconheça, no próprio ritmo, aquilo que lhe faz bem pode ser mais cuidadoso do que ensiná-la a agradecer. Para quem atravessa a doença, também não existe obrigação de encontrar um motivo positivo todos os dias.
A dor merece ser ouvida porque é real. A gratidão pode ter seu lugar porque vínculos, gestos e pequenas conquistas continuam significativos mesmo em períodos difíceis. Quando convivem sem cobrança, agradecer deixa de ser uma exigência de otimismo e passa a ser apenas uma maneira sincera de perceber o que ainda tem valor, sem apagar aquilo que continua doendo.
Imagem ilustrativa: criada com o auxílio de inteligência artificial para representar o tema deste conteúdo, preservando a identidade e a privacidade de pacientes e familiares.
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