Uma criança pode estar no meio de um tratamento de quimioterapia e, ainda assim, escolher com o que quer brincar. Uma pesquisa da Universidade de São Paulo acompanhou cinco crianças com câncer, de 4 a 12 anos, durante atividades de faz de conta relacionadas à hospitalização. Mesmo sobre o leito e convivendo com acesso venoso, alarmes e profissionais, elas se envolveram nas brincadeiras e escolheram os materiais que queriam usar.
Esse resultado chama atenção para algo que pode passar despercebido no hospital: mesmo com uma rotina condicionada ao tratamento, a criança continua imaginando, participando e fazendo escolhas.
Quando brincar encontra espaço
Estar no hospital não significa deixar de brincar. Uma pesquisa publicada na Psicologia em Estudo entrevistou 28 crianças com câncer, de 6 a 12 anos, hospitalizadas em Vitória, no Espírito Santo. Diante de diferentes brinquedos e brincadeiras, 78,6% disseram que gostariam de brincar no hospital. Os autores concluíram que o brincar pode favorecer a adaptação à hospitalização e contribuir para intervenções mais individualizadas.
A brincadeira, portanto, não serve apenas para preencher uma espera. Pode oferecer companhia, estimular a expressão e criar uma atividade que faça sentido para a criança naquele momento. Cansaço, dor, efeitos do tratamento e disposição podem mudar o que é possível fazer em cada dia.
Escolher ainda faz diferença
Na pesquisa da USP, a exploração e a escolha dos materiais apareceram entre as categorias observadas. As crianças também criaram brincadeiras relacionadas à hospitalização, com detalhes sobre procedimentos que conheciam. O estudo mostra que brincar pode ajudar a elaborar experiências difíceis sem tirar da criança a iniciativa.
Essa participação também encontra respaldo no Estatuto da Criança e do Adolescente, que garante o direito à liberdade, à opinião e à expressão, além de brincar e divertir-se. Escutar não significa colocar sobre a criança decisões médicas. Significa reconhecer que, dentro dos limites do tratamento, algumas escolhas podem ser feitas com ela.
O espaço do brincar faz parte do cuidado
A legislação brasileira reconhece esse direito no ambiente de saúde. A Lei nº 11.104/2005 tornou obrigatória a instalação de brinquedotecas nas unidades de saúde que oferecem atendimento pediátrico em regime de internação. A norma define esses espaços como locais com brinquedos e jogos educativos destinados a estimular crianças e acompanhantes a brincar.
Em 2018, uma pesquisa publicada na Revista Brasileira de Cancerologia, do INCA, ouviu dez profissionais de uma instituição especializada no atendimento de crianças e adolescentes com câncer. Para a equipe, o brinquedo ajudava a criança a compreender o universo da doença, expressar emoções, sentir-se mais segura e aproximar-se de familiares e profissionais.
Preservar a brincadeira não é criar uma pausa artificial no tratamento. É deixar que a criança tenha, dentro das condições de cada dia, algum espaço para escolher, imaginar, conversar e descobrir. O câncer impõe procedimentos e limites, mas a rotina ainda pode conter coisas que não cabem em um prontuário: um jogo iniciado, uma história inventada, um desenho escolhido ou uma brincadeira que, por alguns minutos, seja simplesmente dela.
Imagem ilustrativa: criada com o auxílio de inteligência artificial para representar o tema deste conteúdo, preservando a identidade e a privacidade de pacientes e familiares.
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