Uma Bíblia pode chegar durante uma visita, passar pelas mãos de um voluntário e encontrar uma criança, um adolescente ou um familiar. A entrega dura poucos minutos. Depois, o exemplar segue para casa e pode ganhar outro lugar na rotina: uma leitura individual, uma conversa entre pais e filhos ou uma página aberta em um momento inesperado. É nessa possibilidade de continuidade que uma iniciativa mantida pelo Projeto AMIGOS construiu seu significado ao longo dos anos.
A iniciativa começou em 2010, inicialmente em ações realizadas em Olinda e Recife e também em espaços públicos. Com o tempo, passou a alcançar pacientes oncológicos e seus familiares. Até 16 de agosto de 2026, já haviam sido entregues 1.412 exemplares: 931 para jovens e adultos e 481 infantis. A meta para o fim de 2026 é chegar a 1.500 Bíblias.
Uma iniciativa que cresceu com o próprio projeto
Os números ajudam a contar uma parte dessa trajetória. A outra aparece na diversidade de pessoas que podem receber os exemplares. Há Bíblias infantis e edições destinadas a jovens e adultos, acompanhando diferentes fases da vida e diferentes formas de contato com a leitura.
Em escala nacional, o acesso às Escrituras também alcança números expressivos. Dados da Sociedade Bíblica do Brasil mostram que o Brasil distribuiu 4,19 milhões de Bíblias completas impressas em 2024, liderando esse indicador entre os países apresentados no relatório das Sociedades Bíblicas Unidas. No mesmo ano, a distribuição global registrou milhões de exemplares destinados especificamente a crianças e jovens.
Mas uma estatística nacional não traduz o que acontece no momento de uma entrega. Para a campanha do Projeto AMIGOS, a escala é outra: a de um voluntário que separa os exemplares, participa da visita e coloca um livro nas mãos de alguém conhecido naquele encontro. A dimensão da iniciativa está também nessa passagem direta entre quem doa, quem entrega e quem recebe.
Quando a fé encontra uma realidade delicada
A campanha acontece em um contexto que exige cuidado e respeito. O câncer infantojuvenil reúne diferentes doenças e pode afetar crianças e adolescentes em várias etapas do desenvolvimento. Para cada ano de 2026 a 2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 7.560 novos casos no Brasil entre pessoas de 0 a 19 anos.
Nesse ambiente, a Bíblia não ocupa o lugar do tratamento, do acompanhamento médico ou de qualquer outro recurso de saúde. Sua presença pertence a outra dimensão da experiência familiar: a da espiritualidade, quando ela faz parte da vida de quem recebe.
Um estudo publicado na Cogitare Enfermagem, com 63 familiares cuidadores de crianças e adolescentes em tratamento quimioterápico, investigou justamente o uso de estratégias de coping religioso-espiritual. Os pesquisadores encontraram tanto estratégias positivas quanto negativas e apontaram a importância de considerar as necessidades espirituais da unidade familiar quando essa dimensão estiver presente.
O resultado não autoriza generalizações sobre todas as famílias. Cada uma atravessa o tratamento de maneira própria. Para algumas, porém, a fé já faz parte da forma de lidar com perguntas, perdas, mudanças de rotina e períodos de espera. É nesse espaço específico que uma Bíblia pode ter significado.

O que acontece depois da entrega
Existe uma parte da campanha que não pode ser contabilizada. Depois que o exemplar deixa as mãos do voluntário, começa uma história que já não está sob seu controle.
Uma criança pode descobrir as narrativas aos poucos. Um adolescente pode ler sozinho. Um adulto pode compartilhar um trecho com outro familiar. Também é possível que a Bíblia permaneça guardada por algum tempo antes de ser aberta. A campanha não determina esse percurso.
Esse é um dos aspectos mais interessantes de uma doação de livros: o objeto permanece disponível. Diferentemente de uma ação limitada ao instante da visita, a Bíblia pode voltar a fazer parte da rotina muito depois daquele encontro.
No caso do Projeto AMIGOS, essa continuidade também depende de uma rede de participação. Há quem doe um exemplar, quem contribua financeiramente, quem divulgue a campanha e quem leve as Bíblias para as visitas. O resultado aparece na soma dessas pequenas participações. Até agosto de 2026, eram 1.412 exemplares entregues. Para alcançar a meta de 1.500, faltavam 88.
Esse número não representa apenas uma contagem. Ele registra o caminho percorrido por uma iniciativa que começou em 2010 e continua encontrando espaço dentro das ações do Projeto AMIGOS. Uma Bíblia entregue é, no fim, um gesto bastante concreto: alguém decidiu que aquele livro deveria chegar a outra pessoa. O que vier depois pertence à história de quem o recebeu.
Nota: As fotos utilizadas neste artigo foram registradas durante as últimas visitas do Projeto AMIGOS ao Núcleo de Apoio à Criança com Câncer (NACC) e em uma visita ao IMIP, no Recife. Algumas das crianças retratadas já concluíram o tratamento e seguem em acompanhamento médico.
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