Durante o tratamento contra o câncer, a escola pode continuar existindo mesmo quando a sala de aula deixa de fazer parte da rotina. Consultas, internações, efeitos do tratamento e períodos de recuperação alteram horários e compromissos. Manter o vínculo com professores, colegas e atividades escolares passa a ser um desafio.
Quando a presença deixa de ser regular
O afastamento raramente significa apenas perder aulas. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Cancerologia analisou crianças e adolescentes em tratamento oncológico e identificou mudanças na rotina escolar, com interrupção ou adiamento da educação formal durante o período terapêutico. Os autores também apontaram repercussões sociais associadas à impossibilidade de frequentar a escola. (Leia o estudo)
Cada caso evolui de maneira diferente, e a possibilidade de acompanhar atividades escolares pode variar ao longo do tratamento. Por isso, deixar de frequentar as aulas não deve ser interpretado automaticamente como desinteresse pelos estudos. Muitas vezes, a ausência é consequência de uma rotina que precisou ser reorganizada em torno do cuidado e da recuperação.
O direito de continuar estudando
A legislação brasileira prevê mecanismos para preservar a continuidade escolar durante tratamentos de saúde. A Lei nº 13.716/2018 assegurou atendimento educacional ao aluno da educação básica internado para tratamento de saúde, em regime hospitalar ou domiciliar, por período prolongado.
Em 2024, a Lei nº 14.952/2024 acrescentou à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional um regime escolar especial para estudantes impossibilitados de frequentar as aulas em razão de tratamento ou condição de saúde que impeça o acesso à instituição. A norma determina que o regime deve garantir a continuidade e a permanência das atividades escolares.
Isso não significa reproduzir no hospital ou em casa a mesma rotina da sala de aula. O atendimento precisa considerar as condições do estudante e ser articulado com a família, respeitando o momento vivido durante o tratamento.
Quando a escola entra no hospital
Em Recife, uma experiência mostra como esse direito pode ganhar forma dentro de uma unidade de tratamento. A Classe Hospitalar da Figueira, inaugurada na oncologia pediátrica do IMIP, faz parte da Escola Municipal em Tempo Integral Hospitalar Semear, da Prefeitura do Recife. O atendimento começou no ano letivo de 2024 e contempla estudantes da Educação Infantil ao 9º ano do Ensino Fundamental. Segundo o IMIP, cerca de 100 estudantes já haviam utilizado o serviço até sua inauguração oficial. (Veja a reportagem)
A proposta não se limita a oferecer atividades durante a internação. A equipe mantém contato com as escolas de origem e, após as avaliações, encaminha parecer pedagógico e notas. Assim, o estudante não precisa romper completamente com a trajetória que vinha construindo antes do tratamento.
A iniciativa também recebeu reconhecimento em 2026. O IMIP conquistou o primeiro lugar no Prêmio Professor Fernando Figueira com um trabalho dedicado à continuidade do direito à escolarização como parte do cuidado integral em saúde.
A experiência não é isolada. No Hospital de Amor, em Barretos, crianças e adolescentes em tratamento oncológico também contam com uma classe hospitalar no Lar de Amor. Em 2025, o serviço atendia 30 alunos, distribuídos entre os anos iniciais, anos finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio, com atividades adaptadas às necessidades de cada estudante.
O vínculo também faz parte da escola
Uma pesquisa publicada pelo INCA sobre o reingresso escolar de adolescentes em tratamento onco-hematológico acompanhou situações em que profissionais de saúde e educação trabalharam conjuntamente para preservar os estudos. O trabalho destaca a importância da articulação entre essas áreas e da construção de caminhos para que o estudante possa continuar ligado à escola durante o tratamento.
Esse vínculo pode assumir formas diferentes: uma atividade adaptada, uma conversa com o professor, o contato com colegas ou uma preparação gradual para o retorno. Nem todo contato precisa envolver cobrança por desempenho. Há momentos em que acompanhar uma atividade será possível; em outros, a prioridade será o tratamento.
O retorno presencial também pode trazer dificuldades. O estudante pode encontrar conteúdos novos e uma rotina que avançou enquanto esteve afastado. Por isso, preservar a relação com a escola durante o tratamento pode tornar a retomada menos abrupta. Estudos do INCA destacam justamente a importância da classe hospitalar e da articulação entre saúde e educação para reduzir os impactos do afastamento escolar.
Quando a escola fica distante, preservar o vínculo não significa manter a aparência de uma rotina que já mudou. Significa encontrar, junto com o estudante, a família, a escola e a equipe de saúde, maneiras possíveis de continuar fazendo parte dessa trajetória.
O tratamento pode interromper as aulas por um período. Mas experiências como as do IMIP e do Hospital de Amor mostram que a distância da sala de aula não precisa significar o fim da relação com a escola. Em meio a consultas, internações e mudanças na rotina, continuar aprendendo também pode ser uma forma de preservar uma parte importante da vida que existia antes do diagnóstico.
Imagem ilustrativa: criada com o auxílio de inteligência artificial para representar o tema deste conteúdo, preservando a identidade e a privacidade de pacientes e familiares.
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