O trabalho que quase ninguém vê: tudo o que acontece antes de uma visita ao NACC

Uma visita ao Núcleo de Apoio à Criança com Câncer (NACC) começa muito antes do horário marcado. Há materiais que precisam ser separados, pessoas que confirmam presença, atividades que ganham forma e decisões tomadas de acordo com quem estará naquele dia. Cada escolha parece pequena isoladamente. Juntas, definem como aquela tarde será vivida.

No Projeto AMIGOS, a preparação faz parte da própria visita. Não basta reunir doações ou montar uma programação. É preciso considerar o ambiente, respeitar a rotina do NACC e entender que crianças, adolescentes e familiares podem chegar a cada encontro com necessidades diferentes.

O planejamento começa pelas pessoas

Antes de sair, é necessário organizar quem participará, quais materiais serão levados e o que poderá ser realizado. Brinquedos, livros, Bíblias, itens de higiene e materiais para recreação podem cumprir funções diferentes, dependendo da proposta daquele encontro.

Essa escolha também evita transformar a solidariedade em simples distribuição de objetos. Uma doação precisa estar em boas condições e ter utilidade para quem a recebe. Da mesma forma, uma atividade precisa ser adequada à faixa etária e ao momento vivido pelas crianças e adolescentes.

A atenção integral é uma característica importante do cuidado oncológico pediátrico. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) explica que o tratamento exige atuação de diferentes especialistas e que aspectos sociais, familiares e psicossociais também precisam ser considerados.

Preparar também significa saber adaptar

Nenhuma programação consegue prever completamente como será uma tarde no NACC. Pode haver mais crianças pequenas, mais adolescentes, uma família recém-chegada ou alguém que simplesmente não queira participar de uma atividade. Por isso, planejamento não significa rigidez. Significa ter uma direção e, ao mesmo tempo, disposição para modificá-la quando a realidade pedir.

Uma orientação do INCA às famílias reforça a importância de respeitar o tempo e os limites da criança ou do adolescente durante o tratamento. Brincadeiras e jogos podem favorecer a comunicação, mas não devem ser impostos quando a criança não quiser participar.

Essa orientação também ajuda a compreender uma responsabilidade essencial do voluntário: saber quando conduzir uma atividade e quando simplesmente respeitar o espaço do outro.

A companhia também tem significado

A presença de alguém durante o tratamento pode ter importância para a experiência emocional de crianças e adolescentes.

Um estudo publicado na Revista Brasileira de Cancerologia avaliou 25 pacientes de 8 a 18 anos com neoplasias malignas. Entre eles, 24 afirmaram sentir-se mais felizes quando havia um acompanhante durante procedimentos. Em outra questão da pesquisa, 10 participantes relataram ansiedade e/ou medo quando realizavam procedimentos sem acompanhante.

Esses números não devem ser somados. São respostas referentes a perguntas diferentes feitas aos mesmos 25 participantes. O primeiro resultado mostra a percepção sobre a presença de companhia; o segundo registra uma reação emocional relacionada à ausência dela em determinados procedimentos.

O estudo não permite transformar esses resultados em uma regra para todas as crianças e adolescentes em tratamento, mas oferece uma informação relevante sobre o valor que a companhia pode assumir em determinados momentos.

É nesse espaço que a atuação voluntária encontra sua responsabilidade. Estar presente não significa substituir profissionais, interferir no tratamento ou assumir funções que não pertencem ao voluntariado. Significa saber oferecer atenção, respeito e companhia dentro dos limites dessa atuação.

Quando chega a hora, cada detalhe encontra seu lugar

Depois das confirmações, da organização dos materiais e da definição das atividades, chega o momento de entrar no NACC. É quando planejamento e realidade se encontram.

O encontro pode seguir o que foi pensado ou tomar outro caminho. Uma brincadeira pode virar conversa. Um presente pode abrir espaço para uma aproximação. Uma atividade planejada pode ser substituída por algo mais simples. A capacidade de acompanhar essas mudanças faz parte do próprio trabalho.

Em 2025, o Ministério da Saúde e o INCA lançaram o Mapeamento Nacional de Câncer Infantojuvenil para identificar hospitais e instituições que acolhem crianças, adolescentes e suas famílias, reconhecendo esses espaços como elos importantes na jornada de cuidado.

No fim, uma visita bem preparada não depende de uma programação perfeita. Depende de pessoas dispostas a organizar o necessário, compreender os limites daquele espaço e ajustar seus planos ao que encontrarem. É assim que algumas horas de convivência deixam de ser apenas uma atividade marcada no calendário e se transformam em uma experiência construída com atenção, respeito e propósito.


Quer participar das nossas visitas ao NACC? Faça seu cadastro aqui no blog e aguarde o contato de Wellington Nascimento, responsável pelo grupo. Será uma alegria contar com você nessa missão!


Nota: As fotos utilizadas neste artigo foram registradas durante as últimas visitas do Projeto AMIGOS ao NACC, no Recife. Algumas das crianças retratadas já concluíram o tratamento e seguem em acompanhamento médico.


Descubra mais sobre Blog do Projeto AMIGOS

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta