Quando Guilherme entrou na história do Projeto AMIGOS, ele tinha três anos e enfrentava uma leucemia. Seu nome chegou ao projeto junto com o de sua mãe, Shirley, em uma fase ainda inicial daquela experiência de voluntariado. Guilherme morreu, mas as visitas à família continuaram. A história daquele menino se tornou uma das experiências que ajudariam a moldar a maneira como o projeto entende seus vínculos.
A trajetória havia começado antes. Em 2007, Wellington e Patrícia reuniam pessoas no Amigos de Oração. Em 1º de abril de 2009, a iniciativa passou a existir oficialmente como Projeto AMIGOS, ampliando sua atuação para oração, missões e ação social. Naquele mesmo ano começaram as visitas ao NACC. O trabalho também alcançava comunidades de Olinda e viagens missionárias pelo interior de Pernambuco.
Ao longo dos anos, mudaram os lugares, as atividades e as pessoas encontradas. O que se acumulou, porém, foi uma experiência difícil de resumir em uma única definição de voluntariado.

Algumas histórias continuam depois do diagnóstico
A convivência com Guilherme mostrou que uma relação não precisa terminar quando termina a circunstância que a iniciou. Essa percepção ganhou ainda mais sentido ao longo do tempo, à medida que o projeto conheceu famílias em diferentes momentos do percurso do câncer.
O Instituto Nacional de Câncer aponta que o câncer infantojuvenil pode repercutir sobre dimensões emocionais, sociais e econômicas da vida familiar, interferindo na rotina, no trabalho, nas relações e nos projetos de vida.
Para quem participa de uma visita, isso significa chegar sem presumir que conhece toda a história. Uma família pode estar vivendo uma fase de maior tranquilidade, enquanto outra enfrenta um período especialmente difícil. A escuta se torna necessária justamente porque não existe um único modo de atravessar a doença.

O encontro nem sempre acontece como foi planejado
As visitas também ensinaram a lidar com o imprevisível. Uma criança pode preferir uma brincadeira; outra pode estar cansada. Um familiar pode querer conversar; outro pode participar em silêncio.
Uma pesquisa publicada na Revista Brasileira de Cancerologia avaliou crianças e adolescentes com câncer e encontrou diferenças em indicadores de felicidade e ansiedade relacionadas à presença ou ausência de acompanhante. O estudo não atribui à companhia função terapêutica, mas ajuda a compreender que a dimensão humana do tratamento não é secundária.
Foi nesse espaço entre o planejado e o vivido que o projeto aprendeu a valorizar atividades simples, conversa, recreação e momentos de oração sem transformar cada encontro em uma missão a ser cumprida.

A pandemia mudou o modo de estar perto
Em 2020, as visitas presenciais foram interrompidas. Mas as famílias continuaram sendo acompanhadas por telefone.
Do outro lado da ligação estavam situações muito diferentes: famílias que ainda precisavam sair do interior para buscar atendimento na capital, crianças que permaneceram internadas e mães enfrentando a angústia de receber a confirmação de Covid-19 nos filhos. Também vieram notícias de algumas crianças que morreram em consequência da doença.
Naquele período, a dificuldade não era apenas manter contato. Algumas famílias passaram a enfrentar também problemas financeiros enquanto aguardavam a liberação de auxílios governamentais. Durante alguns meses, o Projeto AMIGOS mobilizou campanhas de ajuda e encaminhou doações para famílias que precisavam de apoio naquele intervalo.
Quando as visitas presenciais foram retomadas em 2022, havia mais do que saudade envolvida no reencontro. Havia a memória de um período em que a rotina foi interrompida, pessoas foram perdidas e o modo de acompanhar precisou ser reinventado. A pandemia deixou uma marca definitiva na compreensão de que servir também exige adaptação.

Dezessete anos depois, a memória continua trabalhando
Os 17 anos do Projeto AMIGOS não cabem apenas nas visitas ao NACC. Estão também nas comunidades de Olinda, nas viagens missionárias, nas ações sociais, nas crianças que cresceram, nas famílias reencontradas e nas histórias que terminaram de maneira diferente daquela que todos esperavam.
Guilherme é uma dessas histórias. A pandemia é outra. Entre elas, existe uma trajetória feita de encontros e mudanças que ensinaram que o voluntariado não precisa ter resposta para tudo. Precisa reconhecer o que pode fazer, respeitar o que não pode e não perder de vista a pessoa que está diante dele.
Talvez seja esse o fio que une tantos anos e lugares diferentes: não uma fórmula, mas uma disposição renovada para olhar, escutar e agir conforme a necessidade de cada momento.
E, ao recordar essa caminhada, o Projeto AMIGOS também reconhece aquilo que sustenta sua história desde o princípio: uma fé que deixou de ser apenas palavra quando passou a se transformar em oração, serviço e compromisso com pessoas concretas.
Quer participar das nossas visitas ao NACC? Faça seu cadastro aqui no blog e aguarde o contato de Wellington Nascimento, responsável pelo grupo. Será uma alegria contar com você nessa missão!
Descubra mais sobre Blog do Projeto AMIGOS
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

