Uma proteína presente em um tubérculo comum nas mesas brasileiras está sendo estudada em uma situação bem diferente daquela do alimento consumido no dia a dia. Pesquisadores brasileiros trabalham com a tarina, uma proteína isolada do Colocasia esculenta, espécie registrada pela Tabela Brasileira de Composição de Alimentos da USP como “inhame (taro)”.
O interesse está na própria proteína e na forma como ela é transportada. Nos experimentos, a tarina é incorporada a nanolipossomos, estruturas microscópicas desenvolvidas para carregar a substância. A formulação foi testada em células de câncer de mama e de glioblastoma, mas esses resultados ainda pertencem à pesquisa pré-clínica. O alimento consumido normalmente não foi testado como tratamento.
Os primeiros testes foram feitos com células
A linha de pesquisa começou a ganhar forma em 2019, quando os pesquisadores produziram nanocápsulas com tarina e avaliaram seus efeitos sobre células humanas de glioblastoma e adenocarcinoma mamário. Nos dois modelos, a formulação reduziu a proliferação das células, e a versão encapsulada apresentou atividade superior à proteína livre.
O estudo publicado na revista Molecules em 2019 foi uma das bases para os trabalhos que vieram depois. Naquele momento, a investigação ainda estava concentrada em saber como a proteína se comportava diante das células tumorais em condições controladas de laboratório.
Em 2023, os pesquisadores voltaram-se para a linhagem MDA-MB-231, utilizada em estudos de câncer de mama triplo-negativo. O trabalho publicado no International Journal of Nanomedicine encontrou alterações no ciclo celular, aumento de células em apoptose e ativação das caspases 3 e 7. Também foram observadas estruturas associadas à autofagia e redução da migração celular.
A pesquisa chegou ao glioblastoma
O glioblastoma trouxe outra dificuldade para a investigação: a barreira hematoencefálica, uma estrutura que limita a passagem de muitas substâncias do sangue para o sistema nervoso central.
Em 2025, a equipe utilizou um modelo in vitro dessa barreira, construído com células endoteliais humanas. A tarina nanoencapsulada foi acompanhada durante 180 minutos e chegou a 20% de acúmulo no compartimento inferior do modelo. No mesmo estudo, realizado com células U-87 MG, os pesquisadores observaram alterações relacionadas à apoptose, autofagia, ciclo celular e migração.
O artigo completo publicado no International Journal of Nanomedicine ajuda a dimensionar o resultado: trata-se de um modelo criado em laboratório, e não de uma medição feita no cérebro de pacientes. A passagem pela barreira experimental, portanto, ainda precisa ser investigada em outras etapas de pesquisa.
Estudo mais recente olha para dentro das células
O trabalho publicado em 7 de setembro de 2026 acrescentou outra peça à investigação. Em vez de observar apenas o comportamento das células, os pesquisadores analisaram as mudanças nas proteínas presentes nas células MDA-MB-231 depois de 24 e 48 horas de exposição à tarina nanoencapsulada.
Foram identificadas 2.818 proteínas, e 2.150 apresentaram alterações relacionadas ao tempo de exposição. Após 24 horas, os pesquisadores encontraram mudanças ligadas à resposta ao estresse, ao reparo do DNA e ao controle do ciclo celular. Em 48 horas, apareceram alterações associadas à morte celular e redução de proteínas relacionadas à migração.
Os resultados estão detalhados no estudo publicado na revista Pharmaceutics em 2026. A análise ajuda a explicar o que pode estar acontecendo dentro das células após a exposição à formulação, mas não responde ainda se o mesmo efeito ocorreria em um organismo.
O que a pesquisa permite afirmar hoje
A sequência de estudos mostra uma investigação que vem sendo aprofundada ao longo dos anos. A tarina nanoencapsulada apresentou efeitos sobre proliferação, migração, ciclo celular, apoptose e autofagia em diferentes modelos celulares, e os pesquisadores passaram a investigar também sua interação com um modelo de barreira hematoencefálica e as alterações moleculares provocadas nas células.
Ainda faltam etapas importantes antes de qualquer aplicação clínica. O estudo de 2026 aponta a necessidade de novas pesquisas, incluindo estudos com modelos de organoides e ensaios in vivo.
Por enquanto, portanto, a notícia está na pesquisa — e não no prato. O que os trabalhos demonstram é o potencial de uma proteína isolada do Colocasia esculenta em experimentos de laboratório. Eles não mostram que comer inhame trate o câncer, nem que a tarina nanoencapsulada já possa ser usada em pacientes.
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