Quando um filho tem câncer, o irmão também enfrenta medo, saudade e mudanças

Quando o tratamento começa, a mudança nem sempre aparece no hospital. Pode estar na cadeira vazia da mesa, no trajeto diferente para a escola ou na noite passada na casa dos avós. Enquanto consultas e internações reorganizam os dias, o irmão tenta entender por que a casa ficou diferente.

A pesquisa qualitativa da psicóloga Ana Valéria Paranhos Miceli, realizada com irmãos de pacientes pediátricos do INCA, encontrou relatos de desinformação, medo da morte e de adoecer, ansiedade, culpa, ciúme e vulnerabilidade. Os depoimentos também mostraram perdas na convivência com os pais e mudanças na vida escolar e familiar.

Quando a rotina muda para todos

Internações e deslocamentos podem afastar um dos pais de casa por períodos prolongados, enquanto o irmão fica aos cuidados de avós, tios ou outras pessoas próximas. Compromissos e atividades passam a depender da nova organização da família.

Uma revisão publicada na Revista Brasileira de Enfermagem já apontava alterações na rotina, separação dos pais e sensação de isolamento entre irmãos de crianças com câncer. O mesmo levantamento registrou outro lado: alguns irmãos desenvolveram mais responsabilidade, maturidade e vontade de ajudar.

Quando faltam respostas, surgem dúvidas e medos

Nem sempre o irmão recebe informações suficientes sobre o que está acontecendo. Em artigo publicado na Acta Paulista de Enfermagem, pesquisadoras destacam que os conceitos construídos pelos irmãos sobre a doença e o tratamento são influenciados pelas informações recebidas dos pais e pelas conversas que ouvem no ambiente familiar. Quando esse entendimento não se completa, podem surgir dúvidas, medos e temores, além de fantasias sobre a doença.

A mesma pesquisa mostrou que os irmãos mais novos podiam sofrer com a distância da família, permanecer sozinhos ou aos cuidados de outros parentes e ter dificuldade para compreender por que não podiam acompanhar o irmão ao hospital.

Em outra pesquisa brasileira, realizada com 11 irmãos saudáveis de nove famílias, Aline Cristiane Cavicchioli identificou três dimensões da experiência desses irmãos: a reorganização da estrutura familiar e da rotina, o envolvimento no cuidado da criança doente e a necessidade de suporte social, incluindo apoio emocional, ajuda externa e busca por informações.

Ajudar não deve significar assumir responsabilidades demais

Alguns irmãos passam a fazer mais em casa ou tentam poupar os pais de novas preocupações. Isso pode trazer responsabilidade, mas também sobrecarga.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 reuniu 12 estudos e identificou 19 fatores associados ao sofrimento emocional dos irmãos. Entre eles estavam a percepção de ameaça à própria vida cotidiana e o aumento da carga de cuidados.

Preservar escola, amigos, brincadeiras e outros espaços próprios continua importante. Reservar tempo com os pais, explicar mudanças e permitir perguntas ajudam a manter esse filho presente na própria rotina.

O irmão continua vivendo aquela casa

Não existe uma reação única ao câncer de um irmão. Pode haver saudade, medo, ciúme ou vontade de ajudar, às vezes no mesmo período. Esses sentimentos não anulam o vínculo entre eles.

O tratamento pode ocupar consultas, internações e decisões durante meses, mas o outro filho continua tendo escola, amigos, dúvidas e necessidades próprias. Dar espaço para entender o que está acontecendo e falar sobre o que mudou é uma forma concreta de cuidar também de quem permanece em casa.


Imagem ilustrativa: criada com o auxílio de inteligência artificial para representar o tema deste conteúdo, preservando a identidade e a privacidade de pacientes e familiares.


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