A relação entre alimentação e câncer voltou a chamar atenção após um estudo realizado nos Estados Unidos encontrar uma associação entre maior consumo de alimentos ultraprocessados e ocorrência de câncer de próstata. A análise reuniu dados de 17.024 homens adultos e identificou uma diferença entre os grupos de consumo. O resultado, porém, não permite concluir que esses alimentos tenham causado os tumores.
O que foi observado
Publicado em agosto de 2026 no The American Journal of Medicine, o estudo utilizou dados do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), reunidos entre 2003 e 2023. O consumo de ultraprocessados foi estimado por dois recordatórios alimentares de 24 horas, classificados pelo sistema NOVA. O câncer de próstata foi identificado por autorrelato.
Depois dos ajustes estatísticos, os participantes dos grupos que reuniam do segundo ao quarto quartil de consumo apresentaram risco 27% maior de câncer de próstata que os do primeiro quartil. Na comparação entre os dois quartis de maior consumo e o de menor consumo, o aumento foi de 31%. No quarto quartil isoladamente, a estimativa chegou a 34%, mas não foi estatisticamente significativa. (veja estudo original)
O limite da pesquisa
É nesse ponto que o desenho do estudo faz diferença. Os dados vêm de levantamentos transversais, nos quais as informações são analisadas sem um acompanhamento prolongado dos participantes. Assim, a pesquisa não consegue estabelecer com segurança se o padrão alimentar observado veio antes do diagnóstico do câncer.
Há outras limitações. Dois recordatórios de 24 horas não representam necessariamente a alimentação habitual de longo prazo, enquanto o autorrelato não oferece detalhes clínicos sobre os tumores. Mesmo com os ajustes realizados pelos pesquisadores, outros fatores podem influenciar uma associação desse tipo.
Por isso, os 34% não devem ser apresentados como aumento comprovado do risco. O próprio estudo afirma que são necessários estudos analíticos para testar a hipótese.
O que dizem pesquisas anteriores
Esse resultado também precisa ser visto ao lado do que já havia sido encontrado. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 reuniu seis estudos, com 779.365 participantes e 18.036 casos de câncer de próstata, e não encontrou associação estatisticamente significativa entre maior consumo de ultraprocessados e incidência da doença. A estimativa combinada foi de risco relativo de 1,02, com intervalo de confiança de 95% entre 0,96 e 1,08.
O estudo americano, portanto, acrescenta um resultado novo a uma literatura que ainda apresenta conclusões diferentes. Para saber se essa associação se confirma, são necessários trabalhos que acompanhem os participantes por mais tempo e avaliem melhor a exposição alimentar.
O que permanece recomendado
A orientação para reduzir ultraprocessados não depende dessa pesquisa. O Ministério da Saúde recomenda que a base da alimentação seja formada por alimentos in natura ou minimamente processados e orienta evitar os ultraprocessados. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) também recomenda diminuir o consumo desses produtos na prevenção do câncer.
Para o câncer de próstata, entretanto, o novo estudo representa mais uma peça de investigação do que uma resposta definitiva. A associação observada merece atenção, mas ainda precisa ser confirmada por pesquisas capazes de esclarecer se existe, de fato, uma relação de causa e efeito.
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