Uma mudança na visão pode começar de um jeito quase banal. A letra do celular perde definição, uma luz passa a incomodar ou um dos olhos parece enxergar diferente do outro. Como esses sinais surgem em meio ao cansaço do tratamento, é tentador esperar que passem sozinhos. Em alguns casos, não representam uma complicação grave. Em outros, podem estar ligados ao medicamento, à doença de base ou a uma alteração ocular que precisa de investigação.
O tratamento pode chegar aos olhos
Os efeitos variam conforme a substância, a dose e o tempo de uso. Os corticosteroides podem aumentar a pressão intraocular e contribuir para glaucoma e catarata, sobretudo quando usados por períodos prolongados. Uma nota técnica da Sociedade Brasileira de Glaucoma, publicada em maio de 2026, chama atenção para esse risco, especialmente no uso oftálmico prolongado.
A hidroxicloroquina é outro exemplo. Um estudo com 217 pacientes encontrou retinopatia tóxica em 9 deles. Apenas 31% dos participantes relataram algum sintoma durante o tratamento. Entre os nove casos identificados, seis estavam em fase precoce e foram detectados pela tomografia de coerência óptica de domínio espectral, enquanto as alterações nos exames clínicos apareceram apenas nos casos mais avançados.
Quando a retina muda antes da queixa
Uma pesquisa da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP avaliou 18 mulheres que usavam hidroxicloroquina havia anos, com dose acumulada superior a 1.600 gramas e sem sinais de retinopatia nos exames tradicionais. Com óptica adaptativa, os pesquisadores observaram menor densidade e maior espaçamento entre os cones da retina.
A técnica ainda não faz parte da rotina clínica, e a USP aponta a necessidade de estudos maiores. O achado mostra por que o acompanhamento não pode depender apenas da percepção do paciente: alterações podem começar antes de uma queixa clara.
Alguns sinais mudam a urgência
Redução súbita da visão, piora rápida, flashes de luz, muitas manchas ou “moscas volantes” de início repentino, sombra no campo visual ou dor ocular intensa merecem avaliação rápida. Protocolos de atendimento oftalmológico de urgência incluem esses sinais entre as situações que não devem esperar por uma consulta ambulatorial.
A semaglutida oferece um exemplo recente. Em junho de 2025, a Anvisa alertou para um evento adverso muito raro, a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, associado ao medicamento. Naquele momento, havia 52 notificações de suspeitas de distúrbios oculares, incluindo quatro casos de neurite óptica isquêmica. A agência orientou procurar atendimento diante de perda súbita ou piora rápida da visão.
Em outubro de 2026, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia, a Associação Brasileira de Neuro-Oftalmologia e a Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo afirmaram que ainda não há evidência conclusiva de causa e efeito entre agonistas do GLP-1 e NOIA-NA. A recomendação é não interromper esses medicamentos por conta própria e procurar avaliação médica diante de perda visual súbita.
Uma alteração visual também deve ser levada à consulta. Informar quando começou, se atingiu um ou os dois olhos, se está piorando e quais medicamentos estavam em uso pode ajudar na investigação. Nem todo embaçamento representa toxicidade, mas não vale esperar a piora para contar.
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