Tubo de sangue em laboratório moderno

Exame de sangue busca sinais de mais de 50 cânceres, mas benefício segue em estudo

O Galleri, exame de sangue desenvolvido pela empresa norte-americana GRAIL, começou a ser oferecido no Brasil para procurar sinais moleculares associados a mais de 50 tipos de câncer. O teste analisa padrões de metilação em fragmentos de DNA circulante e estima a possível origem do sinal. Segundo o Conselho Federal de Farmácia, custa R$ 6.990, exige solicitação médica e tem a amostra analisada nos Estados Unidos.

A tecnologia chama a atenção pela possibilidade de procurar sinais de diferentes tumores em uma única coleta. Mas sua utilidade como estratégia de rastreamento ainda precisa ser demonstrada.

O que os estudos revelaram

Um estudo do ensaio clínico britânico NHS-Galleri, publicado na revista Nature Medicine em setembro de 2026, avaliou o desempenho do teste em três rodadas anuais. A especificidade ficou entre 99,5% e 99,6%, indicando uma baixa proporção de resultados positivos entre pessoas sem câncer identificado no período analisado.

Esse índice, porém, não significa que todo resultado positivo corresponda a um tumor. O valor preditivo positivo foi de 58% na primeira rodada, 50,4% na segunda e 45,8% na terceira. Em outras palavras, nem todos os participantes com resultado positivo tiveram um câncer primário identificado durante o acompanhamento. Isso não permite classificar automaticamente os demais casos como falsos positivos definitivos, mas mostra por que o resultado precisa ser investigado.

A sensibilidade — proporção dos cânceres diagnosticados na janela de acompanhamento que o exame sinalizou — variou de 26,7% a 37,2%. Portanto, o teste também deixou de identificar parte dos tumores diagnosticados nesse período.

A questão central é saber se o rastreamento ajuda a evitar diagnósticos em estágios avançados. Em outro artigo do mesmo ensaio, publicado no New England Journal of Medicine, os pesquisadores não encontraram redução estatisticamente significativa na incidência de cânceres em estágios III e IV, considerados em conjunto, entre os 12 tipos definidos previamente no estudo.

Houve um resultado favorável para os diagnósticos em estágio IV, analisados separadamente, mas esse era um desfecho secundário e requer acompanhamento adicional. O ensaio foi financiado pela fabricante do teste, a GRAIL. Até o momento, os resultados não demonstram que o uso do Galleri reduza a mortalidade por câncer.

Resultado positivo não confirma a doença

O exame procura sinais moleculares associados ao câncer, mas não estabelece o diagnóstico. Um resultado positivo pode levar a exames de imagem, biópsia e outras investigações. Já um resultado negativo não exclui a possibilidade de um tumor.

Por isso, quem considera realizar o teste precisa conversar com um profissional de saúde sobre suas limitações e sobre a possibilidade de investigações complementares. A decisão não deve se basear apenas na quantidade de tipos de câncer que o exame procura.

Rastreamento recomendado continua importante

No Brasil, o rastreamento pelo SUS segue critérios específicos de idade, população-alvo e periodicidade. O Ministério da Saúde apresenta orientações para estratégias voltadas a diferentes tumores, incluindo os cânceres de mama, colo do útero e colorretal, conforme os protocolos aplicáveis.

O Galleri não substitui os exames recomendados. Mesmo quem realiza o teste deve manter os rastreamentos indicados para seu perfil e procurar atendimento diante de sintomas suspeitos.

A tecnologia amplia as possibilidades de investigação, mas ainda precisa demonstrar seu benefício clínico. Para o paciente, o que importa não é apenas encontrar sinais associados ao câncer, mas saber se o uso do exame ajuda a diagnosticar a doença de maneira mais eficaz e a melhorar os resultados do tratamento.


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