Parent supporting teenager as they prepare in front of a bathroom mirror

Quando o tratamento muda a aparência, crianças e adolescentes precisam ser ouvidos

Aos 12 anos, Izabella dos Santos recebeu o diagnóstico de linfoma de Hodgkin. Durante o tratamento, perdeu o cabelo, ganhou peso com o uso de corticoides e enfrentou comentários sobre sua aparência ao voltar à escola. Em depoimento à reportagem “Na flor da idade”, publicada na revista Rede Câncer, do INCA, contou que não queria que as pessoas sentissem pena dela. A experiência dela coloca uma questão prática para as famílias: como conversar sobre um corpo que está mudando sem minimizar o que a criança sente?

Explicar sem prometer o que não se sabe

Queda de cabelo, alterações no peso, mudanças na pele e cicatrizes podem ocorrer durante o tratamento, mas variam conforme a terapia e cada paciente. A equipe de saúde pode esclarecer quais efeitos são esperados e quanto tempo podem durar. Antecipar mudanças prováveis, em linguagem adequada à idade, abre espaço para perguntas.

Evite promessas como “seu cabelo vai voltar logo” sem certeza. Uma resposta honesta pode ser: “Alguns remédios fazem o cabelo cair. Vamos perguntar à equipe o que pode acontecer no seu tratamento”. A carta da equipe multidisciplinar do INCA para pais e responsáveis recomenda conversas sinceras e informações compreensíveis sobre as etapas do cuidado.

Ouvir antes de tentar consolar

Quando uma criança diz que está feia ou não quer ser vista, responder que aparência não importa pode encerrar a conversa sem aliviar a preocupação. Perguntar “o que mais está incomodando?” permite entender se ela teme comentários, sente falta do cabelo ou não sabe como explicar a mudança. Desenhar, escrever ou conversar durante uma atividade cotidiana também pode ajudar quem tem dificuldade de falar diretamente.

Um trabalho clínico desenvolvido no INCA analisa como as alterações corporais afetam crianças, adolescentes e familiares e descreve situações em que o sofrimento pode levar ao silêncio. A discussão reforça a importância de oferecer espaço para falar, sem cobrar aceitação imediata.

Respeitar escolhas e preparar a volta à escola

Lenços, bonés, perucas ou a decisão de não cobrir a cabeça devem ser opções, não exigências. Izabella recebeu uma peruca, mas a coceira a levou a preferir bandana ou touca. Ouvir o que o jovem considera confortável e permitir sua participação preserva a autonomia.

A volta à escola depois do tratamento também pode trazer dificuldades. Em um estudo qualitativo com 14 adolescentes sobreviventes de câncer, atendidos em um hospital especializado de São Paulo, pesquisadores identificaram relatos de bullying, preconceito relacionado à aparência e receio de contar aos colegas que haviam tido a doença. Publicado na Revista Eletrônica de Enfermagem, o estudo não representa todos os adolescentes, mas documenta dificuldades vividas por seus participantes. A família pode combinar com o jovem o que deseja compartilhar e, com sua concordância, conversar com professores para evitar constrangimentos.

Quando o desconforto pede apoio

Se o jovem passa a evitar amigos, abandona atividades ou demonstra sofrimento persistente, vale conversar com a equipe de oncologia sobre apoio psicológico. O INCA recomenda suporte psicossocial à criança, ao adolescente e à família desde o início do tratamento.

A conversa não precisa resolver tudo de uma vez. As dúvidas podem voltar quando o corpo muda ou antes de um dia de aula. O importante é que crianças e adolescentes encontrem espaço para falar, tenham suas escolhas respeitadas e participem das decisões que afetam sua rotina.


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