Antes de cada visita ao Núcleo de Apoio à Criança com Câncer (NACC), o Projeto AMIGOS confirma a equipe e prepara a visita. Depois de anos de encontros, Wellington Nascimento e os voluntários aprenderam que nenhuma lista prevê como cada família vai chegar. O planejamento dá direção, mas a equipe precisa saber mudar de rumo.
Preparar a equipe, não só a programação
Confirmada a data, Wellington consulta os voluntários e forma uma equipe de até 15 pessoas. Com a equipe definida, distribuem as tarefas: organizar o lanche, conduzir atividades com crianças, adultos e adolescentes e separar as doações — Bíblias, brinquedos e kits de higiene. Quem não tem função fixa ajuda onde for preciso. A organização dá direção, mas a atenção da equipe continua durante a visita.
Aprender observando
Quem vai ao núcleo pela primeira vez com o AMIGOS observa como as famílias são recebidas antes de conduzir uma atividade. Prestar atenção às conversas também importa: quando uma mãe ou um pai compartilha algo, olhar para o celular pode interromper o contato.
Com as crianças, sorrir e conversar ajuda, mas é preciso perceber se querem brincar; insistir diante de uma recusa causa desconforto. Se uma criança chora, o voluntário pode se aproximar com cuidado, respeitando a orientação dos responsáveis. A primeira visita ensina quando se aproximar e quando dar espaço.
Quando a realidade muda a programação
Essa atenção importa quando a programação não corresponde ao momento das famílias. Uma atividade preparada não garante participação: às vezes, mães e adolescentes brincam; em outras, preferem ficar de fora. Mesmo com dinâmicas preparadas e presentes separados, a equipe precisa reconhecer quando não é a hora. Já houve encontros em que os voluntários se apresentaram a novas famílias, compartilharam uma reflexão, entregaram o lanche e encerraram cedo. Respeitar essa disposição é melhor do que insistir.
Também surgem mudanças por causa do bem-estar. Uma criança enjoada ou chorando pode voltar ao quarto com o responsável; em outros encontros, o adolescente participa enquanto a mãe descansa. Em uma visita, um adolescente sentiu dor e a recreação foi interrompida. A equipe o viu sair do espaço onde todos estavam; o transporte ao hospital ficou a cargo do NACC, que dispõe de veículos para intercorrências. O bem-estar vem antes da atividade planejada.
A fé também acompanha a família
Esse cuidado orienta a forma como o AMIGOS compartilha a fé. Nas visitas há famílias evangélicas, católicas, espíritas e pessoas sem religião; o propósito não é discutir crenças, mas oferecer apoio. Às vezes, perguntamos se alguém deseja pedir oração pela saúde, pela família ou por outra pessoa. Wellington relata que nunca houve recusa ou desconforto, e algumas mães agradecem pelas palavras de esperança.
Entregamos Bíblias e incentivamos a leitura no núcleo, no hospital e depois em casa. O WhatsApp fica disponível para conversas e pedidos de oração. Mães que mantêm contato dizem que brincadeiras e presentes importam, mas valorizam ainda mais as conversas sobre a fé cristã.
Em algumas visitas, famílias que já receberam doações em encontros anteriores nos dizem que não precisam de novos itens naquele momento e sugerem que sejam destinados a outra família que ainda não recebeu. Essa atitude também ajuda o Projeto AMIGOS a direcionar as contribuições para quem ainda não teve essa oportunidade.
Há quem tema visitar o NACC por imaginar apenas sofrimento, mas encontre crianças brincando e cheias de energia. Às vezes, alguém pergunta: “Essa menina faz tratamento de câncer?”. A doença está presente, mas a infância também. Para o AMIGOS, acolher é ajustar os planos ao que cada família precisa e consegue receber naquele dia.
Crédito da foto: Registro da visita do Projeto AMIGOS ao NACC, em março de 2026, durante a entrega de kits de higiene às famílias.
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